Voltar a começar

Escrito por Joaquim Igreja

1. Há momentos em que, ao remexer em discos na prateleira, damos conta de um cantor ou música que nos marcou há tempos atrás. Olha este aqui esquecido… A música puxa-nos então pelas recordações, momentos felizes, melancólicos ou simplesmente fugazes, em que não tivemos oportunidade de assumir ou avançar. Há temporadas em que no carro insistimos em certas músicas, repetimos, até à terceira ou quarta virada, arquivando depois, para voltar a gozar a sensação alguns meses mais tarde. Como se aquele objeto tivesse ali guardado o botão que desencadeia a memória e, mais do que isso, a recordação sentida. Às vezes pomo-lo a tocar sem saber porquê.
Alguns dizem que isso é falta de maturidade e que o normal seria querer sempre coisas novas, não voltar atrás. Mas o nosso cérebro movimenta-se entre a novidade e o bem-estar do reconhecimento, que traz sempre ideias “quentes” nesta “releitura”. Curioso que também nos livros isso acontece, sobretudo com obras que nos marcaram em momentos que poderíamos chamar “menos felizes”, funcionando como compensação de uma perda. Quem perdeu a infância sem a ter encontrado insiste em livros sobre a infância, quem não pisou o risco ou não gastou a energia na adolescência fica preso a obras de aventura ou paixão, quem falhou o amor há de encontrá-lo regressando aos romances ou filmes que nessa altura marcaram essa perda. Eu gosto de regressar e reler.
2. Ao depararmos com a abundância de produção poética (sobreprodução, mesmo), não podemos deixar de pensar na procura de identidade de tanta gente que faz poesia. Porque a poesia é sempre um homem ou mulher à procura de um caminho, que aparece depois plasmado num livro. Esta abundância significa que no fundo de grande parte de nós há um poeta, mas também que nem todos estão destinados a ser poetas “para os outros”. Produzir para a gaveta na maior parte dos casos seria o ideal. Não é poeta quem quer. Só é poeta quem está “destinado” a isso, quem aprendeu pela leitura a arte da palavra, juntando-lhe o “duro esforço” que a escrita poética exige.
Se a poesia não for o grau máximo da vida, se se procura simplesmente o êxito ou se a poesia não surgir fruto da “luta”, se não se desceu aos infernos ou ao fundo do poço várias vezes, nada feito. Ela será inócua, como o é muitas vezes. A primeira pergunta que se deve fazer ao poeta que quer publicar uma obra é: “Sofreste-a? Ultrapassaste algum cabo das tormentas até chegar aí? Perdeste-te?”. Se for um simples jogo ou passatempo entre dois “likes” ou se se destina a desencadear “likes”, é melhor deitar para o cesto.
3. Vivendo no meio de ecrãs, eles confrontam-nos ou agridem-nos a cada momento com as enormidades que deixamos que nos atinjam. Por inércia vamos deixando a TV ligada e ela vai-nos alimentando de produtos ora desopilantes, ora arrepiantes, ora deformantes. Naquela hora antes do telejornal da noite, terminados os gritos de “sirene” da Cristina, quem vê TV tem a alternativa do “Preço Certo”, o programa mais democrático e popular que há. Não sei como se faz a seleção dos concorrentes, mas ali aparecem todas as figuras do nosso armário escondido, sempre acompanhados das lembranças que trazem do senhor presidente da câmara ou da junta. O povo, mesmo, o que está em extinção. O povo da agricultura, das feiras, das aldeias, das romarias, das concertinas, do futebol, das comezainas e da Volta a Portugal. Ao ver um pobre sem tostão a ganhar uma montra de 20.000 euros, ficamos, primeiro invejosos, mas logo a seguir felizes porque a sorte saiu a alguém que a merece.
A propósito de prémios em programas televisivos, ainda não entendi o alcance do Euromilhões, a dar dezenas de milhões a indivíduos que ficam com a vida encalacrada, carregados de pressão, com os familiares, vizinhos e amigos a mendigarem-lhes milhares pelo menos, em nome dos bons sentimentos e princípios dos premiados. Uma vida desgraçada, de rancores e desconfianças, a partir daí sempre controlada, é o que é. Um milhão a cada concorrente premiado não seria a conta certa e faziam-se dezenas de famílias felizes? Fico desanimado ao ouvir: “Um prémio de 70 milhões para um britânico. Em Portugal saíram dois segundos prémios no valor de 200.000 euros.”. E todos os restantes? Com míseras dezenas de euros (ou menos). Não faz sentido! Raio de capitalismo!
4. Há dias em que nós não parecemos nós. Há dias em que parece que acordamos outros, uma espécie de “monstros” que não conviria fazer sair de casa. Há dias em que sentimos que as ruas não cabem dentro da cidade. Há dias em que tudo se transtorna e não nos importaríamos de ir amanhã embora para longe. Há dias em que nos nossos relacionamentos sentimos o olhar dos outros. Há dias em que o espelho nos diz o que não queremos ouvir. Há dias em que chegamos ao fim da tarde e dizemos “Não fiz nada hoje!”. Há dias em que gostávamos de ser 100% verdadeiros, mas não conseguimos. Há dias em que pensamos nas marcas que o tempo marcou na nossa pele. Há dias em que nos apetece “estragar” qualquer coisa que encontremos pelo caminho. Há dias em que concluímos que a vida é complicada. Há dias em que gostávamos que não nos conhecessem. Há dias em que pensamos que “não há nada a fazer”… Mas há outros dias.

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Joaquim Igreja

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