Um 2019 pequenino

Escrito por Amadeu Araújo

O que esperar de 2019?
O que podemos esperar (e devemos recear) de 2019? O INTERIOR voltou a desafiar personalidades, autarcas, políticos e jornalistas a partilhar a sua opinião sobre o novo ano, bem como as suas aspirações, preocupações e anseios. Nesta edição publicamos os primeiros contributos, mas há mais para ler nas próximas semanas.

Tenho para mim que o otimismo é panaceia que nos impele nas alvoradas do ano novo, o ano bom, mas por via do que vejo, pressinto um 2019 pequenino.
Olhemos à nossa volta, preocupados com a quinta. Gerindo táticas, ignorando estratégias. O país esta tomado pelo funcionalismo político, néscio e incapaz de lobrigar caminho, numa postura que contamina o interior mais profundo, este que nos preocupa. A urgência imposta pelos fogos de 2017 trouxe-nos uma secretaria de Estado, um diagnóstico e pouca feitoria. As infraestruturas degradam-se, as acessibilidades mitigam-se, vejam a eternidade para colocar nos carris a via férrea que leva a Guarda à Covilhã e que podia fazer desta região um pêndulo capaz de carrear desenvolvimento. Olhem aos tapumes do Hotel Turismo e escancarem o espanto pelo pasmo que foi começar uma obra imperiosa. Exemplos, poucos para não desesperar, do atavismo do poder central em governar um Portugal inteiro, estejam no poder “as esquerdas encostadas” ou as “direitas grisalhas”. A alternância do nosso poder é geradora de vícios e prebendas e todos vituperam, mas ninguém morde a mão que atira o pão.
Sobramos nós e a nossa condição e unindo esforços poderíamos, e deveríamos fazer muito mais. Na natureza, no património, no vinho e na carne, nas ligações entre concelhos, entre tantos predicados que sozinhos não valem pataco, mas que no conjunto se tornam geradores de riqueza, atraidores de visitantes, chamadouro de investidores, criadores de emprego, que é o que nos falta. Emprego digno e com futuro, procurando caminho como o faz o Fundão. Mas temos medo de juntar as vozes para impor respeito ao Estado central que tudo gasta em abono das suas freguesias e que nos vai retirando deputados, e vozes, conforme mingua a população. Olhamos às nossas capelanias, carpimos invejas e se o concelho vizinho tem uma piscina, pois que a nossa seja olímpica. Esta fraca capacidade de união, este crescer comendo os mais pequenos, conduziu-nos até aqui, a este deserto, de ideias, de iniciativas, de rumos que imponham mudança precisa a um território com as nossas potencialidades. E quando mudamos, vejam o desastre na cultura, é para por os nossos a fazer pior.
A Beira Interior é um poderoso naco deste Portugal e o turismo, os programas para que as pessoas ficassem na Covilhã, mas abalassem a Almeida, dormissem em Pinhel e passeassem no Sabugal, comprassem em Celorico mas fossem a Seia… Tudo isso precisa de estratégia, união de esforços e intermunicipalismo. Menos partidarite e mais região. Vejam o ensino superior, Castelo Branco no agroalimentar e música; Covilhã na medicina e aeronáutica; Guarda na robótica, automóvel e renováveis. Será assim tão difícil postergar a divisão e cuidar da união? Preferimos as capelanias às vigarias. Isso e o despeito do Terreiro do Paço atiram-nos ao ostracismo e à autofagia. Bem sei que há sinais que ditam uma esperança, mas de tão ténues e tísicos que antevejo um 2019 pequenino, à dimensão do que nos querem fazer crer. Mas nós somos mais. E melhores. Assim queiramos fazer.

* Jornalista

Sobre o autor

Amadeu Araújo

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