Sinais dos tempos

Escrito por Joaquim Igreja

1. “É uma vergonha!” é uma das frases mais assertivas à disposição de cronistas, facebookers e conversadores de café quando se quer adotar como nosso o “senso comum” que nos dá razão. A frase está sempre a escorrer emoção pelos cantos da boca e por isso não é frase segura de tranquilidade. É por isso um meio fácil de ter razão. Demasiado fácil, coração a 100 à hora. Dizer “É uma vergonha” é um exercício de soberba porque transforma o nosso sentir no sentir de “toda a gente”. É um exercício de simplificação para quem não quer elaborar um pouco mais. Por isso, de modo geral, a vida é mais complicada do que dizer “É uma vergonha!”.

Aqui ficam algumas dessas vergonhas. É uma vergonha pôr barreiras de segurança às manifestações de forças de segurança. É uma vergonha aquele escritor não fazer parte dos programas. É uma vergonha o ministro não ir ao lugar onde vai ser vaiado. É uma vergonha abrir uma pedreira feia e hedionda para explorar o lítio de que precisamos nos telemóveis e nos automóveis. É uma vergonha não ter os ecopontos à porta de casa. É uma vergonha não podermos ver a declaração de IRS de todos os políticos. É uma vergonha a Internet não ser gratuita. É uma vergonha metade da população não pagar IRS. É uma vergonha os que pagam IRS não pagarem ainda mais. Valha-nos Deus.

2. O mundo vai criando vocabulário a uma velocidade que não conseguimos acompanhar, nomeadamente no âmbito tecnológico. Enquanto a língua não assimila, andamos todos os dias a tropeçar em palavras estrangeiras, input para aqui, download para acolá, outlet hoje, check-up amanhã. É uma manta que nos é lançada e sem a qual ninguém nos autoriza a viver decentemente. No âmbito da publicidade televisiva não há quase anúncios sem palavras inglesas, nomeadamente nos modelos de cada produto ou nos slogans (já caí).

Outra coisa é vermos a linguagem política e mediática começar a manejar, em nome da eficácia, novos conceitos que nos despertam primeiro surpresa, depois um estado entre a concordância e a resignação. Quando se fala por exemplo de pobreza infantil, ela não é primeiro a pobreza de quem gere a vida das crianças, antes de ser a probabilidade forte de uma vida desgraçada para a criança? Na verdade, uma criança só é pobre se alguém o for acima dela. Mas a ideia funciona e alerta, desperta mentes e faz criar programas destinados a arrancar a criança daquele estado, ajudando evidentemente quem a sustenta. Uma das mais recentes “descobertas” na imprensa internacional foi a ideia de “precariedade menstrual”. Calculando a despesa toda, no âmbito da menstruação, do trajeto de vida de uma mulher enquanto tem “regras”, alguns estados têm organizado programas contra a “precariedade menstrual” e atribuído subsídios ou apoios para apoiar a higiene íntima feminina desde a juventude, mantendo esses apoios em situação de dificuldades económicas. Engenharia social, engenharia política, engenharia linguística.
3. Ao olharmos para as sociedades democráticas em que a reivindicação é o motor do progresso e a corrupção ou a fraude o caminho mais curto para a prosperidade pessoal, não nos surpreende que, numa sociedade fechada e sem ascensor social como a do século XVI, se procure a ascensão social pela intrusão no domínio de el-rei através dos meios mais “práticos”. Ser “cortesão” podia ser o estatuto ansiado ou o seguro de um rendimento que pudesse abrir caminho ao casamento e ao sustento dos descendentes (“um ofício real, que só progridem os que o têm”, diz Lazarilho de Tormes).

“Lazarilho de Tormes”, narrativa anónima do século XVI, aparece como a primeira tentativa do romance pícaro de anti-heróis, que meio século depois terá realização monumental no “D. Quixote” ou, em Portugal, nas narrativas de Fernão Mendes Pinto. É um rapaz que se entrega como criado a diversos amos sucessivamente, para aliviar a família, e que vai sobrevivendo e aprendendo a vida pela resistência ou pela astúcia, tentando ser sempre mais esperto que o respetivo amo. Se o amo é forreta, ele há de abrir a caixa do pão, nem que seja imitando o roer de um rato. Se o amo é um escudeiro pelintra e passa mais fome do que ele, ele vai pedir e arranja comida para os dois. Se a vida não é tão próspera assim, fecha-se os olhos a um “caso” da esposa, que até traz dinheiro ao casal. E assim consegue chegar ao ofício real de pregoeiro nas vendas, leilões e julgamentos do reino. Atual e revelador.

4. Ao longo de 109 meses (cerca de 9 anos) mantive esta coluna com o título TRESLER, quase sempre escrita a partir de leituras do meu dia a dia, ora na área do livro ora na dos media. Escrevi quase sempre sobre aquilo de que gostei, raramente do que detestei. Fui também mostrando como sentia a evolução de Portugal como sociedade democrática e os dilemas em que se encontrava. Procurei analisar, através do espelho dos livros, a realidade que sempre ultrapassa a ficção: as disputas, o egoísmo, as manhas, a dissimulação, um clima de hipocrisia social que me desespera. Agradeço a todos os leitores e sobretudo aos que me mostraram as suas opiniões. É altura de parar. Até um dia destes. E Feliz Natal!

Sobre o autor

Joaquim Igreja

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