Seremos uns mais iguais que outros?

«Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros», é, provavelmente, a frase mais badalada do livro “O Triunfo dos Porcos”, de George Orwell. No entanto é já uma evolução do mandamento inicial que, pura e simplesmente, rezava que «todos os animais são iguais».

Vem isto a propósito das agressões sofridas por uma juíza e uma procuradora do Ministério Público em pleno tribunal de Matosinhos. Como consequência imediata do ato, à agressora foi aplicada a medida de coação mais grave: prisão preventiva. Houve, com toda a certeza, razões ponderosas que levaram a esta medida, disso não duvido. Depois, célere, o Ministério da Justiça veio condenar os factos ocorridos lembrando a importância dos tribunais na democracia portuguesa.

Bem sei que os tribunais são um dos órgãos de soberania e que, como tal, devem ser respeitados cabendo ao cidadão cumprir as regras que garantam o seu bom funcionamento. No entanto, não posso deixar de pensar noutras situações que têm vindo a público (com muito menor eco na comunicação social…) de repetidas agressões, físicas e psicológicas, a outros profissionais que, como juízes e procuradores, têm o direito constitucional de não serem violentados no exercício das suas profissões.

Professores, médicos e enfermeiros têm sido alvo fácil de energúmenos (sim, energúmenos. Que outro apodo se lhes poderá dar?…) que, de norte a sul, têm apontado a profissionais destas áreas. No caso dos nossos hospitais que, todos sabemos, não são propriamente um exemplo de bom funcionamento, parte-se para a violência de uma forma e com uma facilidade assustadora. Os punhos são a arma preferida dos imbecis…

No caso da Educação, os casos são mais do que muitos. Agora, quando se pretende que nas escolas, além de se ensinar também se eduque, os professores têm que ser, além de docentes, psicólogos, assistentes sociais e, não raro, substituir-se à família. Depois, bem, depois, há casos em que uma qualquer atitude desagrada às famílias e eis que surgem as agressões. Os punhos são a arma preferida dos imbecis…
Perante tudo isto, quais foram as medidas de coação aplicadas a estes agressores?… Alguém já ouviu uma palavra que seja do titular da pasta da Educação sobre os múltiplos casos que vieram a público?…

Como se vê, tratamento diferente para casos em que há agressores e agredidos. Ou será que os setores da Educação e da Saúde são filhos de um deus menor na nossa democracia?…
Orwell, quase oito décadas depois, parece continuar a ter razão: somos todos iguais, mas uns somos mais iguais que outros…

Sobre o autor

Norberto Gonçalves

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