Quo Vadis Guarda

Escrito por Pedro Narciso

No princípio era o Monstro. E o Monstro estava com Cavaco Silva, e o Monstro era o Estado. Ele crescia desde o princípio com o Estado. Tudo foi feito por ele; e nada do que tem sido feito, foi feito sem ele. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. Um monstro que, identificado na década de 90, cresceu, multiplicou-se e ganhou força, qual Gremlin molhado e esfomeado. E nem Guterres conseguiu sobreviver à sua força. O pântano cresceu e a água já lhe está agora bem acima dos joelhos. Com 30 milhões de dívida à Águas de Portugal, na Guarda, já temos uns bons palmos de líquido acima do nariz.
Não estamos perante um boato do Lago Ness, mas na frente de um Cavalo desgovernado de Madonna num qualquer palácio de Sintra! Ainda que haja discursos em sentido contrário, ninguém acredita que a UNCC da PJ possa estar a perder tempo na promoção de uma espécie de Campeonato Nacional de alegada corrupção. Quase parece que se está a usar como arma o pega monstro, um “slime” dos anos 80 que quanto mais alvos atingia mais sujo e viscoso se tornava.
E se as claques estão sempre prontas para dizer que a acusação não é mais do que um golpe baixo dos adversários, depois de duelos Tutti-Frutti com supostos esquemas de financiamento partidário ilegais, suportados por procedimentos concursais viciados e contratação de pessoal, a Teia veio dar o diagnóstico final. Corrupção por adjudicação direta, com metástases por todo o país. A derRota Final de um Portugal que se perfila para ganhar esta Liga das Nações na arte da cara de pau a históricos, como a Itália, Albânia e Bulgária.
Realizado pelo investigador Luís de Sousa e António Tavares, o estudo que denuncia a falta de transparência na contratação pública, que pode tornar-se causa de má despesa pública e fonte de corrupção, foi atacado e menosprezado no discurso da sessão solene do Dia da Cidade de 2018 pelo presidente da Câmara à altura. Porque recusar a “vacina” da ciência para os nossos problemas de apodrecimento coletivo está na moda. Mas não será por isso que deixa de ser profundamente estúpido.
O estudo refere ainda que, nas autarquias, mais de 60% dos procedimentos são realizados por ajuste direto, em que práticas como o milagre da divisão dos contratos, os que ficam a apenas 1 euro abaixo do limite, a insuficiência de informação e uma plataforma transparente para concorrer simplesmente não existe. É nesta República do Ajuste Direto que há ainda quem queira dar mais responsabilidades do poder central às autarquias. Como se quisessem que acreditássemos que a personagem mais idónea para negociar o resgate do Capuchinho Vermelho fosse o próprio Lobo Mau.
A “Qualidade da Governação Local em Portugal” faz parte do Index de uma certa inquisição política, que gosta de questionar, mas não de agir. Pergunta o que pode fazer para colocar mais portugueses a votar numas eleições europeias, mas na hora de dar credibilidade ao sistema, desvaloriza as acusações de que um dos membros é alvo. Porque na política, além de ser, é necessário parecer, ou não fossem estes cargos públicos eleitos. Na prática, o cabeça de lista optou pela clássica defesa da mãe revoltada contra o sistema escolar que não compreende as travessuras e limitações do filho e que não só o defende de forma incondicional, como ainda lhe oferece um L-casei imunitase parlamentar para o lanche.
O discurso do 10 de Junho de João Miguel Tavares, novo para quem não o lê, salazarento já desde janeiro para outros, bem pode falar do mérito e de algo em que acreditar. Porque enquanto a perceção de justiça for a de que, apesar das montanhas de processos, só se conseguem parir ratos, o desinteresse e a alienação vão continuar. «Quando se investiga, tem que se investigar tudo, para se fazer um julgamento adequado». E outra coisa não podemos esperar, porque quem não transdeve não teme!
O município da Guarda ocupa o lugar 175 (total de 308) do ranking municipal da transparência. Em anos anteriores ocupou mesmo as últimas posições. A Guarda entrou no radar mediático pelas piores razões. Estaremos na rota correta? Estará associado esse nevoeiro informativo com as dúvidas das próprias equipas de investigação? Nunca se conseguirá determinar essa relação de causa-efeito, mas sabemos, como diziam os Ornatos Violeta, que o Monstro precisa de Amigos.

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Pedro Narciso

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