Os esqueletos e os armários

Na última semana o ex-Presidente da República, ex-primeiro-ministro, ex-líder do PSD depois de uma tão badalada quanto romanesca viagem à Figueira da Foz, veio novamente a terreiro. Não se sabe de onde, mas veio. E veio, com aquele seu ar esfíngico e pose professoral, afirmando que, depois de aturado trabalho de investigação, não tinha descoberto em nenhum dos seus governos rasto, ténue que fosse, de ligações familiares entre os governantes da época. Deveria saber Cavaco Silva que há uns comprimidos para casos como este e que ajudam a memória a ter mais pujança.
Mas, pronto. O homem que nunca lia jornais e que, não tendo dúvidas, raramente se enganava (ou seria ao contrário? Parece-me que tenho de ir à farmácia…) não poderia saber que, lá pelos idos dos anos 90, uma publicação, então dirigida por um tal Paulo Portas, fazia manchete dessas ligações (e não eram poucas…). Ora, não tenho constância que o homem tenha vindo a público fazer ato de contrição sobre as declarações produzidas (Ai, os comprimidos!…).
À hora em que escrevo, a mesma personagem, em entrevista a uma rádio de âmbito nacional, veio avisar para a quase falência da Segurança Social prognosticando que, daqui a não muitos anos, a idade da reforma poderá estar perto dos 80 (sim, oitenta, anos…). Se os estudos feitos para alicerçar estas afirmações forem fidedignos como a outra investigação, então estamos conversados…
O que não disse, e talvez devesse ter dito, é que, para além das explicações demográficas que têm sido recorrentes, urge que o sistema de Segurança Social seja constantemente auditado, fiscalizado, de molde a evitar gastos supérfluos e situações menos claras.
O que não disse, e devia ter dito, é que há gente a receber muitos milhares de euros de reforma enquanto outros (a grande maioria, pois claro…) têm de contentar-se com umas migalhas.
O que não disse, e devia ter dito, é que há gente a usufruir de mais do que uma reforma. Não foi ele que se queixou da ou das suas reformas que não lhe davam para viver? (Onde estarão os comprimidos que os não encontro?…)
Do que não deve esquecer-se, nem que seja à custa dos tais comprimidos, é de pensar que o povo português tem memória (às vezes curta…) e que se lembra daqueles inícios dos anos 90, de um período em que a torneira europeia debitava milhões e milhões sem que tal tenha servido para criar um modelo de desenvolvimento eficaz e garantia de futuro do nosso cantinho…
Pois: às vezes, antes de abrir a porta do armário têm que se tomar uns comprimidos…

Sobre o autor

Norberto Gonçalves

Deixar uma resposta