Os 30 anos perdidos e a era pré-apocalíptica

Escrito por Pedro Fonseca

“Independentemente do local onde a culpa repousará, duas coisas são certas: os derrotados somos todos nós e os mais penalizados serão, seguramente, as gerações futuras.”

A História da Humanidade já nos habituou à alternância entre períodos de paz, confiança e crescimento e tempos de guerra, incerteza e recessão. Em 1991, há precisamente 30 anos, o fim da Guerra Fria fazia acreditar que se estava perante a inauguração de uma nova era de segurança e prosperidade à escala mundial. Volvidas três décadas, é seguro afirmar que essa nova era não se consumou e que os altos decisores políticos desperdiçaram tempo valioso na resolução dos grandes problemas que afetam a Humanidade. Foram 30 anos perdidos!
É certo que há a registar menos conflitos armados e de menor dimensão e que muitos países melhoraram os seus índices de desenvolvimento económico, social e cultural. Mas o mundo não está mais seguro, nem a riqueza passou a ser distribuída de uma forma mais justa, quer entre países, quer no seio dos mesmos. Por outro lado, o agravamento substancial de problemas de alcance transnacional ameaça a nossa própria sobrevivência e a sustentabilidade do planeta que habitamos.
É fácil e é justo criticar os EUA pelo sucedido. A superpotência teve a oportunidade de chamar a si o papel de liderança no processo de resolução desses graves problemas, sem necessidade de atropelar ou desrespeitar a ONU. No entanto, as sucessivas administrações norte-americanas fizeram quase sempre o oposto, colocando os seus interesses em primeiro lugar e contribuindo para desacreditar a organização internacional que reúne as melhores condições para promover e efetivar a tão necessária cooperação internacional.
Os EUA são os grandes responsáveis, mas não estão sozinhos. Independentemente do local onde a culpa repousará, duas coisas são certas: os derrotados somos todos nós e os mais penalizados serão, seguramente, as gerações futuras. Não necessitamos sequer da capacidade de previsão catastrófica de Nostradamus ou de outro “profeta da desgraça” para constatar o óbvio: vivemos hoje um cenário verdadeiramente pré-apocalíptico.
Os problemas ambientais, causados ou agravados pela ação humana, perdem-se de conta (aquecimento global, deflorestação, perda de biodiversidade, escassez de água potável, acidificação dos oceanos, entre muitos outros). Os recursos naturais estão a esgotar-se e o número de locais do planeta que estão a ficar inabitáveis não cessa de aumentar, mas a população mundial continua a crescer de forma descontrolada. Perante este cenário, os fluxos massivos de migrantes e as disputas territoriais são inevitáveis e tendem, naturalmente, a aumentar em número e em intensidade.
As incertezas em relação ao “amanhã” são ainda agravadas por uma pandemia mundial sem fim à vista e por mais uma recessão económica e consequente crise social que lhe está diretamente (mas não exclusivamente) associada.
Os sons inconfundíveis e bem audíveis de algumas “bombas-relógio” fazem temer que, todavia, o cenário ainda poderá piorar. São os casos do diferendo entre a China e Taiwan, a instabilidade nos Balcãs e a vontade expressa da Rússia de retomar a sua influência na Europa de Leste. Em momento algum, nas últimas três décadas, a ameaça de uma guerra a uma escala continental ou mundial foi tão real como o é hoje.
Se em 30 anos de relativa paz e prosperidade não fomos capazes de resolver tantos e tão sérios problemas, alguns dos quais ameaçando a própria sobrevivência da Humanidade, alguém é otimista ao ponto de acreditar que o conseguiremos fazer mergulhados num clima de incerteza, de recessão e de guerra iminente?

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Pedro Fonseca

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