O regresso da serpente fantástica

«A metáfora do comboio resume de algum modo a história política e social mais recente da Europa ou do ocidente, arrastando várias carruagens de sentidos»

Quando há mais ou menos cinco anos desci do comboio na estação de Cuba (Alentejo), ao final da tarde, tive a sensação de entrar no cenário de um filme. Desses em que alguém desce na plataforma de uma estação deserta e olha o relógio marcando o tempo suspenso de uma cidade de interior. Fiquei a ver o comboio afastar-se em linha recta, diminuir de tamanho até desaparecer, lá ao longe, na curva do horizonte em direcção ao sul. Poucas imagens como a dessa gare deserta, um relógio suspenso com os ponteiros desacertados e um comboio a esvair-se na paisagem traduzem melhor o desamparo de uma vila ou cidade do interior.
Recordo esta imagem a propósito da notícia de reabertura, no início de Maio, do troço da linha da Beira Baixa Covilhã-Guarda, encerrado desde Março de 2009, e do que parece ser a intenção do Governo em investir na ferrovia nos próximos anos. Tendo nascido na Guarda e ganho raízes nestas paragens do vale beirão, só posso exultar com a notícia. E, naturalmente, com a perspectiva de voltar a ver deslizando por entre as curvas e o curso do Zêzere (mas também do Diz e do Noéme), arrastando-se devagar sobre as pontes, seduzindo a montanha e o olhar, a fantástica serpente da minha infância.
O comboio faz parte do nosso imaginário colectivo, desde os comboios de brinquedo, a corda ou a pilhas, percorrendo montanhas e túneis de fantasia, passando pelo Hogwarts Express da saga Harry Potter (hoje uma das marcas turísticas das Highlands escocesas) ao famoso e luxuoso Expresso do Oriente, ligando desde 1872 a Europa ocidental ao sudeste asiático, de Londres a Istambul, graças à iniciativa de Georges Nagelmackers, dono da Compagnie Internationale des Wagon-Lits. A ideia de viagem, de desconhecido e de mistério sempre andaram associadas à imagem deste mitológico dragão metálico, cuspidor de fumo em vez de fogo, para a qual terão contribuído quer a literatura quer o cinema ou mesmo a música. Quem alguma vez leu “Anna Karenina”, de Tolstoi, dificilmente poderá esquecer o encontro de Anna e Vronsky na gare de Moscovo, como não esquecerá a figura de Hercule Poirot e “Um Crime no Expresso do Oriente”, de Agatha Christie, o diálogo das personagens a caminho de Istambul no “Expresso do Oriente”, de Graham Greene, ou o estranho e sinistro rosto de Kees Popinga, “O Homem Que Via Passar os Comboios”, de Georges Simenon. Pela via do romance ou do policial, o comboio proporcionou ao leitor um meio de viajar até aos mais insuspeitos ou obscuros lugares da respeitabilidade burguesa.
A metáfora do comboio resume de algum modo a história política e social mais recente da Europa ou do ocidente, arrastando várias carruagens de sentidos. Incluindo, como sublinha Paul Theroux, a história do jazz: «Metade do jazz é música de caminho de ferro e o próprio movimento e o ruído do comboio possuem o ritmo do jazz. Nada disto surpreende: a era do jazz foi também a era do caminho de ferro» (O Velho Expresso da Patagónia). Enquanto produto da tecnologia e da sociedade industrial capaz de encurtar distâncias geográficas e sociais, de aproximar gentes e culturas à escala global, de promover a mobilidade de fluxos turísticos ou migratórios, o comboio foi, especialmente no final do século XIX e no início do século XX, metáfora do progresso humano. Mesmo se, poucos anos mais tarde, essa metáfora haveria de ceder o lugar à metonímia do horror e do mais impensável retrocesso civilizacional europeu, às ferrovias do Holocausto. Ao avião como metáfora de um mundo ao alcance de um voo de asa.
Foge-me o pensamento para o desinvestimento de décadas na ferrovia, para a desertificação do interior e perda de velocidade do país face à bitola europeia. E a memória traz de novo até mim a imagem de uma estação deserta, de um relógio parado e um comboio a esfumar-se na dobra da paisagem. Reconheço a estação deserta, algures no interior da Bulgária. Assim como reconheço o homem que vem ao meu encontro. Chama-se Tzanko Petrov, o trabalhador ferroviário que um dia encontrou milhares de leves (moeda búlgara) numa linha de comboio. O protagonista do filme da dupla Kristina Grozeva e Petar Valchanov (2013) fica surpreendido com o achado e decide chamar a polícia. Na sequência deste gesto, o Ministério dos Transportes faz de Tzanko um herói nacional (procurando desviar as atenções das suspeitas de corrupção que envolvem o Governo). Durante uma cerimónia de homenagem pública, Julia Staykova, chefe do gabinete de relações públicas do Ministério, coloca no pulso de Tzanko um relógio digital novinho em folha, uma oferta do Governo que substitui o velho “Glory” que o pai lhe dera e sempre o acompanhara sem «nunca se atrasar ou adiantar». Começa aqui o calvário de Tzanko ao tentar recuperar o relógio levado pela chefe de gabinete e do qual avultará o desacerto de tempos entre a lentidão ritual (mas precisa) do mundo pré-moderno a que pertence e a velocidade do mundo hiper-moderno a que pertence Julia. Tzanko é arrastado num vórtice de que sairá humilhado, sem rosto e sem voz.
Se o plano de investimento do Governo na ferrovia é um passo importante no encurtar de distâncias e na revalorização do interior, nomeadamente devolvendo a cidades como a Guarda uma centralidade que as auto-estradas lhe retiraram e uma proximidade com o litoral que os custos das portagens nas SCUT tornaram utópica, importa não cruzar os braços. Os mais de 70 milhões de euros gastos na recuperação de 47 quilómetros de linha ferroviária, e de estruturas como pontes onde o comboio não excederá os sessenta quilómetros/hora, não podem ser comprometidos pela ausência de uma ligação eficiente entre a estação e o centro urbano. Como não poderá ser comprometido pela ausência de políticas culturais sérias e sustentáveis, de valorização do património material e imaterial da região, da sua identidade e memória ao longo dos tempos, dos seus recursos naturais, da sua localização geográfica e do envolvimento das suas gentes, capazes de atrair os viajantes à região. Acima de tudo, não poderá ser comprometido pela ausência de políticas de incentivo à fixação de empresas e das pessoas, sob pena de as estações continuarem a ser lugares desertos, com um relógio suspenso e um comboio esvaindo-se ao longe na linha do horizonte. Quem sabe, o relógio digital, mas inútil, de Tzanko.

Sobre o autor

Isabel Cristina Mateus

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