O “novo normal”

A cicatriz do coronavírus tem de sarar. Temos de sair à rua, voltar ao trabalho, voltar à vida…

A expressão anda por aí à espera que a pandemia passe: o “novo normal” não sabemos o que será, mas todos percebemos que implicará mudanças. Incrédulos, vivemos um tempo cheio de dúvidas e anseios, de medos… Aterrorizados, facilmente ficámos em casa e agora custa-nos a sair. Custa?
Enquanto muitos ficaram confinados, contribuindo decisivamente para que a evolução da luta contra a Covid-19 fosse bem-sucedida, muitos trabalhámos sem parar – neste jornal trabalhámos todos os dias, sem nunca ficarmos em casa, para o manter informado, para cumprir com a nossa obrigação e compromisso com os nossos leitores e com a sociedade. Porque o país não parou, ainda que muitos tenham pensado que sim. Para que tudo funcionasse, com tantos isolados, muitos correram riscos e contribuíram para que a “vida continuasse” – e foram tantos, em tantos sectores.
Num tempo em que viveremos “o resto das nossas vidas” com a cicatriz do coronavírus – por exemplo, ninguém desfrutará de uma ópera da mesma forma se ouvir alguém tossir na sala e somos a última geração que se despede com beijos e abraços. Perante este sentimento, ou arriscamos, saímos e começamos esse “novo normal”, mesmo que com receios e cuidados (muitos), e contribuímos para recuperar a normalidade ou vamos continuar aterrorizados, confinados, isolados, em teletrabalho e sem voltar à vida normal. Custa?
Se não começarmos rapidamente a caminhar para esse “novo normal”, se não voltarmos à vida com confiança, as novas gerações vão viver muito pior que as anteriores. E vamos perder liberdade, perder direito à privacidade, vamos estar mais endividados, seremos mais fiscalizados, escravos do digital, dos ecrãs, das videochamadas, do escritório virtual… Talvez seja uma boa forma de vida. Mas será?
Depois de 50 anos “salazarentos” de ditadura, encerrados ao mundo, isolados, em que a tríade Fátima, Futebol e Fado nos eram servidas como sucessos universais – na verdade Fátima sucedeu à Senhora da Lapa porque a devoção do povo sempre precisou de fé; o futebol foi Eusébio e uns momentos em Wembley; e o fado é só nosso e dessa força da natureza que foi Amália (a galega Luz Casal, com “Piensa em mi”, teve uma pincelada de fado que Almodôvar presenteou ao mundo em “Tacones lejanos”) – vivíamos porventura o nosso melhor tempo como país (desde os “Descobrimentos”, entre o séc. XV e o ouro do Brasil) e foi isto que o coronavírus interrompeu (ou matou, para além das mais de mil mortes choradas). O Portugal moderno, alfabetizado, da ciência e cultura, de Saramago, de Siza Vieira e de Paula Rego, das estrelas “Michelin”, dos prémios internacionais, da segurança, da liberdade, da baixa taxa de mortalidade infantil, das boas praias, de Lisboa, dos muitos sítios que encantam quem nos visita, do Cristiano Ronaldo e dos campeões de futebol, do Salvador Sobral, de tantas coisas que nos permitiram viver os primeiros 20 anos deste século como nenhuma geração de portugueses viveu antes de nós. Custou chegar aqui?
Custou. Custou muito. De país pobre, onde tantos viviam na miséria e de onde muitos tiveram de partir para os brasis, para África, França, Suíça… à procura de sustento e a fugir da pobreza.
O Portugal que se cruza com o medo, já não é sequer o mesmo que Passos Coelho mandou emigrar, é um país cheio de energia e sonho, que dobrou o cabo da Tormentas que a Troika impôs. Por tudo isso, a cicatriz do coronavírus tem de sarar. Temos de sair à rua, voltar ao trabalho, voltar à vida… porque «cada dia é um bico de obra, uma carga de trabalhos», como nos canta Ana Moura, mas vai valer a pena. E não pode haver nenhum vírus a parar-nos. Vamos?

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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