O ano da “trambiqueira”

Escrito por Diogo Cabrita

A trambiqueira começou a vida na má. Era má pessoa, era filha da má vida, era má de saúde, maus dentes, feios cabelos, pés inóspitos. Família de muitos filhos de pais diferentes. A trambiqueira aos 19 vendeu-se a um gordo com algumas posses que podia ser seu pai. Engordou-o mais, amou-o como ele quis e depois dobrou-lhe a dose até que teve de o afastar morto de cima de si. Mudou de terra e levou algum dinheiro consigo. Estudou. Aperaltou-se, tratou da boca e dos cabelos, fez exercício e endoideceu um doutor que conheceu no ginásio. Podia ser seu avô, mas babado de tonto. Casaram e ela entregou-se-lhe de manhã e de noite. Deu-lhe comprimidos para o tentar ao almoço. Morreu feliz debaixo dela. Levou a herança e mudou de cidade. Agora cobrava por noites especiais em Lisboa. Aprendeu a seduzir na internet. Eles vinham de longe e ela preparava um serviço completo. Jantar, passeio e sexo. Preferia clientes casados com passagens raras por Lisboa. Alguns roubou-os enquanto dormiam. Outros ficaram mais tempo e pagaram bem pelas fantasias. Usou os lucros em apartamentos que agora alugava a turistas e a estudantes. Correu mal quando um dos roubados a denunciou à polícia. Correu pior quando se descobriu que houvera outros. Foi pior quando chegou ao tribunal e lá estava a juíza, sua irmã que nunca procurara, e no Ministério Público a viúva do primeiro gordo que morreu em cima de si. 2019. Acabou mal.

Sobre o autor

Diogo Cabrita

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