O 25 de Abril é de todos

Milhões de portugueses cantaram “Grândola, Vila Morena” por todo o país – celebraram Abril como sempre, mas foi sentido por todos como nunca.

Não houve festa mas houve celebração.

O confinamento não permitiu que as habituais comemorações ocorressem, nomeadamente com a descida da Avenida da Liberdade, mas o 25 de Abril “andou” por aí. Saiu à rua como há muito não se via. Não nos sítios do costume, mas nas ruas das cidades, nas casas, nas famílias, pelo povo. Foi emocionante! E, como disse Vasco Lourenço, ficou «claro que o 25 de Abril está no coração dos portugueses». 

O repto lançado pela Associação 25 de Abril, para às 15h00 os portugueses cantarem a “Grândola, Vila Morena”, foi ouvido e milhares (ou milhões) de portugueses cantaram Zeca Afonso e aplaudiram a Revolução a meio da tarde deste sábado de feriado. Não foi em todos os lares, nem em todas as ruas, mas o 25 de Abril foi do povo, foi dos portugueses. Fintámos o confinamento! 

Muito mais do que as diferenças de interpretação das regras de confinamento a que o Covid-19 nos obriga, muito mais que as diferenças ideológicas, muito mais do que os excessos de alguns líderes partidários ou a inépcia aberrante do presidente da Assembleia da República, deste 25 de Abril ficam o discurso aberto, acolhedor e democrático do Presidente da República e o regresso à rua de “Grândola, Vila Morena”. 

«O 25 de Abril é essencial e tinha de ser invocado», disse esta manhã Marcelo Rebelo Sousa na Assembleia da República; durante a tarde Zeca Afonso cantou-se nas ruas e nos lares portugueses. 

Na Covilhã a poesia passeou-se pelos bairros da cidade; na Guarda as instituições evocaram de forma reduzida (não se compreende como é que se trocaram sessões solenes, com distanciamento social e  os cuidados prescritos pela DGS, por transmissões obtusas e que ninguém viu ou ouviu no Facebook) como se a importância das comemorações não merecessem melhor tratamento – num momento de confinamento das pessoas, dos direitos e das garantias, evocar a liberdade tinha de ser celebrada de forma clara e inequívoca. 

A democracia merece coragem e essa coragem tinha que ser percebida hoje – as comemorações do 25 de Abril mereciam aplauso inequívoco de todas as instituições e de todos os democratas. Os populistas e neo-fascistas pensaram que o novo coronavírus ia ser o seu grande aliado no desejo de ostracismo da Revolução.

Enganaram-se, o 25 de Abril foi celebrado na Assembleia da República, foi comemorado em muitos concelhos onde os municípios celebraram solenemente a data. E foi comemorado na casa de milhões de portugueses, não por saudosismo, mas porque a liberdade foi uma conquista há 46 anos, e que nestes dias foi suspensa, e merece ser comemorada.

Celebrar o 25 de Abril é recordar que a liberdade e a liberdade de imprensa foram uma conquista que não podemos deixar confinar.

O 25 de Abril foi celebrado como sempre, ou como nunca, porque nestes dias de medo e angústia percebemos o quanto gostamos da liberdade. 

O 25 de Abril é de todos. É seu e é meu. E não o deixaremos confinar… 

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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