Medíocres, imbecis, parasitas e outros que tais

Escrito por Jorge Noutel

«A tempestade é hoje a pandemia conjugada com o ciclo negativo de uma economia que, periodicamente, precisa de coisas destas para aumentar o fosso entre ricos e pobres»

Vivemos tempos bizarros. De um lado, uma sociedade que atingiu píncaros de desenvolvimento tecnológico e de progresso humano impensáveis apenas há uns séculos. Do outro, a manutenção de crendices e cultos à ignorância que nos remetem para os períodos mais negros da História. O exemplo clássico é o da gente a quem nenhuma evidência científica consegue convencer que a terra não é plana. O que explica tamanha escuridão em que o obscurantismo das trevas domina as opiniões e a crendice, o que explica que sofismas da época dos absolutismos férreos façam a sua disseminação?

As respostas a estas e a outras perguntas da mesma índole encontramo-las em escritores da grandeza de António Lobo Antunes. Em “Diálogos Lusófonos”, o escritor faz uma análise lúcida do momento que vivemos: «A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza. Os programas de televisão são quase sempre miseráveis mas é vital que sejam miseráveis. E queremos que as nossas crianças se tornem adultos miseráveis também, o que para as pessoas em geral significa responsáveis».

E, mais adiante, Lobo Antunes afirma: «Os homens excepcionais servem apenas para situações excepcionais, pois são os únicos capazes de as resolverem. Desaparece a situação excepcional e prescindimos deles. Gostamos dos idiotas porque não nos colocam em causa. Quanto às pessoas de alto nível a sociedade descobriu uma forma espantosa de as neutralizar: adoptou-as. Fez de Garrett e Camilo viscondes, como a Inglaterra adoptou Dickens. E pronto, ei-los na ordem, com alguns desvios que a gente perdoa porque são assim meio esquisitos, sabes como ele é, coitado, mas, apesar disso, tem qualidades. Temos medo do novo, do diferente, do que incomoda o sossego. A criatividade foi sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos meios-artistas, meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Voltando à pergunta de Dumas – Porque é que há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos? Não tenho a certeza de ser um problema de educação que mais não seja porque os educadores, coitados, não sabem distinguir entre ensino, aprendizagem e educação. A minha resposta a esta questão é outra. Há muitas crianças inteligentes e muitos adultos estúpidos, porque perdemos muitas crianças quando elas começaram a crescer. Por inveja, claro. Mas, sobretudo, por medo».

Nesta análise do mestre Lobo Antunes temos as respostas para uma sociedade que definha, agarrada ao mastro que se afunda perante uma tempestade. A tempestade é hoje a pandemia conjugada com o ciclo negativo de uma economia que, periodicamente, precisa de coisas destas para aumentar o fosso entre ricos e pobres. A sociedade, cujas instituições estão enxameadas de medíocres, acaba a servir os mandantes de forma submissa. Uns vendem-se, outros são vendedores do que podem. Uns e outros mentem com toda a desfaçatez para satisfazer os capatazes. Ilusoriamente criam cenários idílicos para se perpetuarem no galinheiro onde as raposas matreiras são as guardiãs. Os populismos pululam com diversas cambiantes, mas sempre com o mesmo fim: sossegarem! Esta é a sociedade cega que se ilude por uma democracia representativa que, periodicamente, é chamada a depositar o papel na urna. Esgotam-se os direitos. Só os cidadãos comuns, relegados dos banquetes, tratados como bastardos, têm deveres. Convencem-se que quem manda é o povo.

Não são os afetos, as fotografias, os abraços e beijinhos distribuídos a esmo que matam a fome a ninguém. Uma democracia representativa que precise desse tipo de cosmética para sobreviver, está em estado de agonia profunda. Depois queixem-se dos extremismos…

Sobre o autor

Jorge Noutel

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