Germinal

1. A moda veio para ficar. As bibliotecas tornaram-se o fundo obrigatório das comunicações caseiras dos comentadores televisivos. O país já percebeu que a do Marques Mendes é fraquinha. Em contrapartida, a do Nuno Rogeiro é imensa. A do Daniel Oliveira tem as melhores estantes. Já a do José Eduardo Martins parece demasiado arranjada. O Pacheco Pereira nem ousa mostrar a dele. Mas sabemos que está lá. Incomensurável. Até agora, a estante de Nuno Rogeiro é imbatível. Vários pormenores fazem a diferença: arrumação displicente; design arrojado, com prateleiras desniveladas; livros pousados em cima, na horizontal, o que sugere uma alta rotação de consulta/leitura; um conjunto de arquivo em cima, ao centro, que poderão bem ser recortes, ou fotocópias; um candeeiro para “dar ambiente”. As bibliotecas do meu agrado são um desarranjo organizado qb. Um labirinto em que só o autor possui o fio para se orientar. E, nesse fervor displicente, a arrumação é, simplesmente, a contiguidade dos livros a falar. Como se daí nascesse uma única história, que todos pudessem ouvir.

2. Há uma história que é preciso contar nos tempos que vivemos. É preciso perceber que, ao contrário do que ouvimos dizer, isto não é uma guerra, embora pareça. É uma ponta solta da natureza a restabelecer equilíbrios que nós pusemos em causa. Que nos vai obrigar, para que alguma coisa mude, a um percurso de consciência que conduza à serenidade e à compaixão. Queremos e vamos sobreviver a isto. Mas se não aproveitarmos esta oportunidade para criar um homem novo, de pouco nos vale. Muitos de nós, algum dia despertámos para essa tomada de consciência. Mas o comodismo, ou a inércia, levaram a que uma camada de pó fosse crescendo sobre esse desígnio, digamos, espiritual. Este é o momento de remover esse pó. Nessa tarefa, seremos quase todos zeks (prisioneiros dos gulags) nas nossas casas. Os mais prolixos, num remake à Dostoievski, aproveitarão para escrever as suas “Recordações da Casa dos Mortos”. Os mais despertos descobrirão o infinito numa partícula. Os mais consumistas vão engordar. Os mais melancólicos vão ter momentos complicados, seguidos de temperança. Os mais faladores vão esgotar os plafonds de minutos do telemóvel. Os mais sós vão perceber quanto valem os amigos. Os mais desacompanhados vão erigir um altar à família. Os hipocondríacos vão desesperar. Os estetas não vão dar o tempo como perdido. Os poetas e os jardineiros vão cultivar a sua horta. Os viajantes vão chegar a locais que nunca imaginaram. Todos teremos a possibilidade de nos observar num cenário limpo. Escutar o canto dos pássaros, estonteados com o silêncio dos espaços que agora lhes deixámos e já foram seus.

3. A boa educação está longe de ser um mero refinamento que alguns confunde e outros faz admirar. Em certas ocasiões, revela-se no seu esplendor: um destemor atencioso e inegociável, que não procede “De” mas impele “Para”; um galanteio que não hesita, mesmo gaguejando; um apego ao que faz sentido a si próprio, através dos outros, sem medo, ainda que surpreendido pela desilusão. E tudo isto sem nada para justificar, sem nada dar como perdido. Bastando soletrar o egoísmo com as mesmas sílabas de uma dedicatória

4. Escrever bem é “dizer”, de forma clara, coisas complexas. O leitor agradece. Escrever mal é tornar incompreensível o que é simples e passar em claro o que é complexo. O leitor desliga. Mesmo assim, ambas as situações são evidentes questões de estilo. Mas há um outro registo, no que à “escrevinhação” diz respeito. A que poderíamos chamar espúrio. Acontece quando se pretende transmitir uma impressão, uma ideia, uma emoção, de tal forma adornada, que confunde quem lê e faz perder o autor num labirinto. Neste caso, a ostentação vocabular oculta o vazio e compõe a pretensão. O leitor ri-se, ou fica em pânico. Mas nunca mais volta.

5. Um cinismo superior, exclusivo. Feroz no início e delicado no fim. As travessuras da fragilidade, com condimentos especiais. A inquietação do sonhador, de mãos dadas com o cálculo do frívolo. Pois que o cálculo do frívolo, ao contrário da usura do egoísta, é distributivo, ainda que necessariamente injusto. O cínico superior distribui impunemente o prazer, o sangue e a vaidade, guardando para si a glória de traficar a inteligência e a agilidade. As coisas demasiado humanas para serem trocadas no comércio sonolento da adulação. O cínico é o traficante exímio da execração do moralista pela inocência do libertino. O cínico como um príncipe, sem a púrpura do trono ou do altar. O cinismo como uma filigrana, cuja beleza está no detalhe e só de perto pode ser admirada.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

António Godinho Gil

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