Geringonças

Escrito por David Santiago

A expressão geringonça veio para ficar no léxico ibérico. Em Espanha, a designação escolhida para caracterizar a aliança de poder que derrubou Rajoy, e nunca antes experimentada, foi “Frankenstein”, mas vai dar tudo ao mesmo. Em ambos os casos deu-se nome a fórmulas governativas inéditas que alargaram as possibilidades de formação de governos com base na mesma aritmética parlamentar.
As sondagens mostram que tanto em Espanha como em Portugal é bem provável voltar a haver geringonças na sequência dos próximos atos eleitorais. As eleições espanholas deste domingo deverão obrigar à formação de nova geringonça ou, no limite, à reedição do “Frankenstein” cuja implosão provocou a terceira eleição geral em pouco mais de três anos.
Mas se as duas últimas eleições evidenciaram quão difícil é formar governo a partir de um parlamento tão polarizado – onde o histórico bipolarismo PSOE-PP deu lugar a um espectro partidário dominado por quatro forças –, a emergência da extrema-direita (Vox) veio adensar ainda mais a nebulosa da incerteza política. E esta “pentocracia” em que o Vox se junta a PSOE, PP, Unidos Podemos e Cidadãos já provocou uma separação de águas inesperada.
Liderado pelo herdeiro de Aznar, Pablo Casado, o PP deslocou-se para a direita e abandonou o centro-direita. O Cidadãos, que até aqui sempre quisera colocar-se entre o PSOE e o PP, optou (definitivamente?) por também se afirmar à direita. O centro-direita ficou órfão.
Estas deslocações permitiram ao PSOE alargar o espaço de influência e afirmar-se como o partido fiel de uma balança ameaçada por radicalismos. É essa a estratégia do primeiro-ministro em funções Pedro Sánchez e, aparentemente, está a produzir resultados, como mostra o progressivo reforço do PSOE nas intenções de voto.
No entanto, Sánchez ficará distante da maioria absoluta, mesmo que em coligação com o Unidos Podemos. Portanto para governar restam-lhe duas hipóteses: voltar a procurar o apoio dos partidos soberanistas que o derrubaram ao não aprovarem o orçamento espanhol de 2019, arriscando nova legislatura instável e ao sabor dos ímpetos nacionalistas e, com isso, gerar descontentamento no amplo eleitorado unionista; ou juntar-se ao Cidadãos, isto se Albert Rivera esquecer o “não” a qualquer aliança com o PSOE enquanto os socialistas forem liderados por Sánchez, o que parece difícil dada a guinada rumo à direita.
O bloco de direita (ou as três direitas como ironiza o líder socialista) formar governo representaria desde logo uma nunca vista geringonça (pelo menos ao nível nacional), porém é necessária uma inflexão na tendência das sondagens para alcançar a almejada maioria absoluta, isto porque nesta fase PP, Cidadãos e Vox continuam aquém dos 50%.
Por cá, o barómetro da Aximage confirma a estabilidade do sistema político português, com os campos da esquerda e direita bem definidos e praticamente inalterados face aos resultados das últimas eleições legislativas. A última sondagem dá a vitória a um PS incapaz de se reaproximar da maioria absoluta e o PSD a crescer para aproximar a direita do resultado da PàF em 2015.
Isto significa que António Costa vence, mas também que precisará da esquerda (Bloco e, ou CDU, ou na ordem inversa) para evitar o regresso da direita (PSD e CDS) ao poder. Bem-vindo à Ibéria das geringonças!

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David Santiago

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