Emoções e comportamentos

Escrito por Diogo Cabrita

A experiência do confinamento tem uma importância enorme na emotividade. Os confinados podem ser de vários tipos: os sós, os em família, os com crianças pequenas, os em grupo como em lares de idosos, em prisões ou em enfermarias. O isolamento é uma prova de resistência emocional a quem estiver sozinho numa casa pequena sem varanda. O confinamento numa casa com comensais é como a estadia num mosteiro onde os nossos gestos são importantes para o bem-estar dos outros. A experiência de encerramento em grupo está documentada na literatura e no cinema com “Doze Homens e uma Sentença” (“12 Angry Men”), de 1957, de Sidney Lumet, e na peça do mesmo tema https://www.youtube.com/watch?v=QwmG0Vuraao , ou em momentos dramáticos da história como a prisão massiva de opositores de regime – aquela infâmia do estádio de futebol no Chile –, ou em descrições de vidas conventuais, monges em enclausuramento, freiras em infinitos silêncios.
As emoções envolvidas são inúmeras e são ampliadas pelas pessoas confinadas e pelo espaço, e pela própria meteorologia, e a arquitetura do local. A emoção é uma reação provocada por um estímulo que nós percebemos e avaliamos e que conduz a uma reação ou comportamento com teatralização corporal. A raiva, a alegria, a tristeza, o nojo, o medo, a surpresa, a confiança e a antecipação estavam no modelo de Plutchik, que pretendia catalogar emoções. As seis primeiras acabaram mais consensualmente como as emoções primárias. Juntando-lhe o ciúme, a vergonha, a culpa e o orgulho temos as dez estruturas que compõem a plêiade a controlar e digladiar com as funções do neocórtex e as hormonas do sistema nervoso. Tudo em nós sem libertações e frenações que podemos ou não dominar consoante a cultura, o vivenciado e a razão.
As listas de comportamentos que condicionam desagrado ou cansaço se nos confinamos está dependente do modo como demonstramos as emoções. Preguiça, fanatismo/dogmatismo, vozearia, gula, luxuria, verborreia, porcaria/desmazelo, avareza, vanglória, melancolia, desconfiança, desprezo, cobardia, vício, rudeza, mutismo, mentira, egoísmo/narcisismo, incoerência, idolatria, irresponsabilidade, infantilidade, ruido/bulício, manipulação, vitimização, negativismo, apropriação, o excesso de proximidade, o toque constante, o arregimentar, a questiúncula, o acumulador. Tudo isto são coisas normais nos humanos e se calha em muitos animais, mas, quando colados uns aos outros, são fatores de cansaço e de explosão, de desencadeamento de emoções negativas.
Está na hora de começar a pensar em desconfinar porque até o Sol vai começar a convidar. Não podemos ir todos como se não houvesse mais nada, mas temos de ir rapidamente abrindo e avaliando, mas sempre abrindo apesar das consequências complexas que por vezes as emoções gostariam de contrariar. O medo não pode mandar, e o unanimismo é uma doença que temos de desconstruir. A realidade já mostra que o desastre não é da dimensão do inicialmente esperado e o mundo tem de seguir seu caminho.

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Diogo Cabrita

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