Desmentido

Escrito por António Ferreira

“Passaram os dias e não ouvi ninguém desmentir André Ventura, como não o desmentiram logo naquele dia – e falou depois dele quem tinha obrigação de conhecer a verdade.”

No dia 25 de Abril, na Assembleia da República, na sessão solene comemorativa dos 48 anos da revolução de 1974, André Ventura tomou a palavra. Depois de defender que a revolução tinha falhado em toda a linha, disse: «Em 1975 Portugal estava no Índice de Desenvolvimento Humano na 23.ª posição, em 2015 estava na 41.ª»
Muitos acreditaram e começaram a partilhar esses valores nas redes sociais. Alguns corrigiram 1975 para 1974 ou ainda antes. O “facto” foi aproveitado para mostrar que o 25 de Abril tinha empurrado Portugal para trás e que, a não ter havido a “Abrilada”, estaríamos hoje muito melhor.
Há os que acreditam e aqueles que verificam afirmações como esta. Passaram os dias e não ouvi ninguém desmentir André Ventura, como não o desmentiram logo naquele dia – e falou depois dele quem tinha obrigação de conhecer a verdade.
O Índice de desenvolvimento humano (IDH), quando foi criado, media o desenvolvimento humano a partir de três indicadores: a esperança de vida à nascença, a alfabetização e o rendimento per capita. Foi desenvolvido pelos economistas Amartya Sen e Mahbub ul Haq e é usado pela ONU, que publica todos os anos a lista ordenada dos países de acordo com o seu ranking nesse índice.
Comecemos por notar a primeira mentira: o índice é criado em 1990 por aqueles economistas e começa a ser usado em 1993 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
É verdade que é possível compilar os dados de 1975 relativos àqueles indicadores (esperança de vida, alfabetização e PIB per capita) e ordenar os países de acordo com os resultados obtidos. No relatório de 2006 do PNUD é feito precisamente isso e aí é indicado que Portugal, em 1975, estava no 28.º lugar do mundo. Por isso não no 23.º. Nesse índice estavam atrás de Portugal, porque sem dados conhecidos em vários indicadores, países como a República Checa, a Hungria, a Croácia, a Polónia, Cuba, Eslovénia, Letónia, Brunei e outros.
Depois há que ver os indicadores e a sua evolução. Em 1975, a esperança de vida à nascença era em Portugal de 68 anos (em Cuba era de 70,7, na Croácia de 69,6, na Letónia de 70,1, Chipre 71,4, Malta 70,7 – o que sugere que a posição relativa de Portugal não correspondia à realidade dos factos).
A seguir a 1975 o IDH melhora em Portugal com consistência (ou, mais corretamente, melhoram os valores dos indicadores que viriam a integrar o índice): passamos de 0,791 (quanto mais próximo de 1, melhor; a Noruega, nesse ano, teria 0,868) em 1975 para 0,807, em 1980 para 0,830, em 1985 para 0,853, em para 1990 e em 2004 para 0,904 – bastante acima do valor que a Noruega, número um do ranking, tinha em 1975.
Por isso, contrariamente ao anunciado, Portugal não piorou após o 25 de Abril. Foi melhorando, e muito. Segundo dados da PORDATA, a esperança de vida à nascença, que era de 67,1 anos em 1970, passa em 2019 para 81,1 anos. A percentagem de analfabetos, que era em 1970 de 25,7%, passa em 2011 para 5,2% e em valores absolutos, de 1.795.210 analfabetos em 1970 para 499.936 em 2011. O rendimento nacional bruto per capita, que era em 1975 de €7.872,40 (valores a preços constantes, atualizados de acordo com os valores de 2016, tomado como ano de referência), passa para €13.746,00 em 1991 e para €17.174,50 em 2015. Em 2019 estava em €19.303,40.
Recapitulemos: ganhámos em média 14 anos de vida; há três vezes e meia menos analfabetos (ou menos 1.295.274 analfabetos), ganhamos por ano duas vezes e meia mais do que ganhávamos. Ganhamos em todos os indicadores e livrámo-nos da PIDE, da guerra, da censura prévia, da repressão.
Já agora, e só para assinalar mais uma mentira, em 2015 Portugal estava no 38.º lugar do Mundo no IDH, e não no 41.ª.

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António Ferreira

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