Desejo e virtude

Escrito por Diogo Cabrita

Que pode fazer o desejo se o incomoda a virtude? Vem aquele calor, uma vontade, um tremor e pumba lá está a voz da igreja, o som das súplicas da mãe, o longínquo clamor crítico da avó.

– Não te percas minha filha. Não te desvirtues. Não caias na boca grande do mundo.

Ela, lá no ginásio, vê corpos lindos, insinuações indecentes e outras não. Sobem-lhe hormonas e descem desejos, disparam sonhos e aparecem loucuras. Há dias viu na Internet um filme explícito da Erika Lust, depois atreveu-se no Pornhub e lá estavam várias “instagirls” famosas que, afinal, eram atrizes de pornografia. Imaginou-se enlouquecida no lugar da Kendra Lust e mais que um dos rapazes do ginásio.

Transpirou e excitou-se naquela noite. A avó entrou pelo sono em gritos, abriu a porta blasfemando, soaram asneiras na boca do pai e da mãe. “Ordinária” foi a menor. Felizmente foi um sonho atípico. Abandonou o ginásio. Deixou a roupa com licras justas, os tops mais insinuantes e dedicou-se mais aos estudos. A virtude para já ganhava terreno. Desligou o Instagram, abandonou o Facebook e percebeu que ganhava tempo, muito mais tempo para fazer outras atividades.

Ontem bebeu uns copos com o Emanuel e deixou-o avançar. Deixou-se levar. As hormonas aqueciam-lhes os beijos, o fulgor da juventude incendiava as têmporas, a formidável vontade da penetração incendiava o espaço e assim se amaram várias vezes os dois. Meninos, ambos, dois adolescentes fogosos.

Ao fim do dia chorava porque a inquietava o pecado, a virtude, a vergonha de se ter deixado queimar. Vinha logo depois, às golfadas, o sorriso dos sabores adquiridos. Foi tão bom! No dia seguinte o desejo ganhou à virtude e depois percebeu que a melhor virtude é ter desejo com quem tem por ela.

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Diogo Cabrita

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