Curto-circuito

Escrito por Albino Bárbara

Neste tempo em que o verbete tem o nome de Covid e se confunde política com politicagem, cavalgando o significado de politiquice, com o único objetivo de politicarem, apostando nas suas lorotas, tentando montar o espetáculo no teatro do boulevard, dá para perceber que aqui não há vencedores nem vencidos e, quer eles gostem ou não, todos saem mal do filme, perguntando se este foi o espírito que os levou a celebrar o Dia da Liberdade.
Os jacobinos sempre foram assim e, quando o verniz estala, os defensores do ensino, licenciados na tal escola cínica, vão contando as historietas de sempre. Afinal, o carteiro toca (pelo menos) duas vezes e a História repete-se. Algumas personagens bem conhecidas do tio Patinhas continuam a tentar tramar Roger Rabbit. As raposas seduzem as pitas imitando o seu cacarejar, a cigarra explora a trabalhadora formiguinha e até a Alice continua a viver no tal país das mil e tantas maravilhas. Ele há coisas que nunca mudam.
No tempo em que os animais falavam (o triunfo pode já não ser dos mesmos), esta rocambolesca historieta orwelliana ainda vai a meio e nem eles próprios sabem qual será o epílogo desta guerra pelo poleiro, onde é visível, apenas e tão só, a defesa do umbigo, pois ninguém consegue descortinar uma ideia, um simples conceito ou qualquer esboço de um projeto. Afinal não são todos farinha do mesmo saco? O outro foi-se embora. Pudera. Teve por único condão (para além de embonecar a cidade) deixá-los ao barulho.
Aceitando, por princípio, que a política não é a tal porquinha onde os recos mamam alternadamente, Santo Agostinho dizia que a origem do poder era (quase) divina: legitimidade (legítimo detentor), função (separação de poderes), organização (sistema de governo), âmbito (prossecução de determinado fim), obediência e resistência (obedecer a ordens legítimas resistindo às ilegítimas).
Aristóteles definia-a como uma espécie de saber de que nem a sensibilidade nem a imaginação devem estar ausentes, tendo prioridade a racionalização tecnológica e a reflexão crítica.
É, no entanto, da grande sabedoria dos milenares povos do deserto que o conceito político e a grande filosofia de vida nos são transmitidos. O Homem tem de pautar-se por três simples conceitos: o sustento, a doação e a celebração. O primeiro tem a ver com o trabalho, o segundo com o ato de doar, considerado sagrado, tornando o espírito livre, e o terceiro exprime o comportamento repleto de ensinamentos e sabedoria.
No nosso pequeno mundo é absolutamente necessário trocar os José Fouché pelos ensinamentos dos povos do deserto, de trocar os verbetes da politiquice e das pequenas vaidades pessoais pelo nobre e sadio conceito de política.
Caso contrário, durante mais de ano estamos condenados a ver o barulho, o curto-circuito e a politicagem tomarem parte do nosso dia-a-dia, ficando todos nós à espera de um novo capítulo desta novela que (como todas) vai ter um final. Pelo andar da carruagem, pode não ser um “happy ending” dos filmes do “far west”.

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Albino Bárbara

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