Continua a haver tempo

Há um mês atrás escrevi que era este o tempo para ter tempo. E continua a haver tempo. Um tempo diferente com coisas que, em tempo “normal”, nos passavam ao lado ultrapassadas pelo lufa-lufa do quotidiano.
Agora, quando escrevo, já as escolas reabriram portas aos alunos mais velhos e as creches também já se encheram dos risos das crianças. Por mim, com os meus alunos à distância de um ecrã, continuo a ter tempo.
E parece até que a Natureza também já percebeu que estes são tempos novos. Vai daí, e não vá este vosso escriba deixar-se levar pela preguiça, tratou de arranjar um despertador à altura. Logo que o sol se levanta é certo e sabido que ele lá está, nos ramos mais altos do velho castanheiro a martelar ruidosamente. Pois é este o meu despertador: um vistoso pica-pau que não se cansa de, laboriosamente, fazer o seu ninho. Há quantos anos o não ouvia!… Mas agora há tempo…
Há tempo para ouvir ao longe o velho lavrador a assobiar uma canção dolente à medida que as vacas sulcam a terra preparando-a para a sementeira. Há tempo para lhe ouvir os gritos com que as incentiva a continuar rego abaixo, rego acima, até que a noite as leve para o merecido descanso.
Há tempo para observar os melros de bico amarelo a escarafunchar a terra em busca de alimento. Há tempo para ver as cerejas, que já pintam, a ficar cada dia mais vermelhas. Há tempo para ouvir os mais leves sons com uma atenção que há uns meses atrás não tínhamos. Há tempo para viver estes pequenos momentos que hão de servir para nos desanuviar estes tempos. Há tempo para acompanhar, centímetro a centímetro, o crescimento das flores que agora nos parecem mais vivas e mais bonitas.
Com tanto tempo, só mesmo um trava-línguas que tem a ver com ele, com o tempo, e que é um desafio para vossorias (vamos lá dizê-lo sem nos enganarmos):
“O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem e o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”.
Bem, enquanto tentam desentaramelar a língua, vou ali ter com o meu amigo pica-pau que há já um ror de tempo que me está a chamar.
Volto já!…

Sobre o autor

Norberto Gonçalves

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