Combater o atraso do interior

A Comunidade das Beiras e Serra da Estrela é uma das mais pobres do país

Precisamente na semana em que o Governo apresenta mais um paliativo para o despovoamento do interior, este jornal publica o ranking das maiores empresas da Beira Interior e publica um artigo de opinião da Ministra Ana Mendes Godinho, a responsável pela medida de apoio a quem quiser mudar para os «territórios de baixa densidade».

Em primeiro lugar, como todos sabemos, o desenvolvimento regional e a atração de pessoas passa pelo dinamismo da economia. Não é possível sequer reter os naturais das regiões pobres se não houver emprego e futuro para os que aqui nascem, quanto mais para atrair pessoas de outras regiões. Pelo que só com a mudança de paradigma e o investimento público será possível inverter a tendência ancestral de esvaziamento do interior. E, desde logo, apoiando as empresas que resistem e geram emprego e riqueza na região.

A Coficab é, com diferença, a empresa mais dinâmica e relevante da região. Tem na Guarda duas unidades fabris e um centro de I&D essencial para o futuro do grupo e que é a prova de que a tecnologia de ponta e a investigação também podem ser desenvolvidas em regiões “deprimidas”. O Portugal “sonolento” também tem trabalhadores e técnicos competentes e capazes. E também tem verdadeiros empreendedores que conseguem promover o desenvolvimento quando têm condições para isso – e na Coficab têm: uma empresa internacional que é a maior exportadora da região, que está entre as maiores empresas do Centro, um grande empregador, que aposta na Guarda e investe numa nova fábrica, sobre a liderança do guardense João Cardoso.

Mas quando os chamados custos de contexto, como nos diz o diretor de operações da Coficab, são mais altos na Guarda do que no litoral, obviamente não será possível atrair empresas para o interior e promover a economia – porque as distâncias para os mercados são grandes e temos as portagens mais caras do país, porque temos falta de acesso aos centros de decisão, porque o aquecimento é um custo elevado, porque a mão-de-obra especializada rareia e não é possível fixar os jovens mais preparados… As assimetrias crescem e Lisboa e Porto distanciam-se do “Portugal profundo”. Por isso, os paliativos são bem-vindos, mesmo que sejam para aliviar consciências. Ou, como também temos de interrogar, são medidas que visam a migração do litoral para o interior, mas não há apoios para quem cá vive e que, de forma resiliente e esforçada, escolhe continuar nos territórios ostracizados, desertificados e pobres. Porque escolher migrar do Portugal urbano e moderno para o Portugal profundo é ter ousadia e coragem – e os apoios entre 2.400 e os 4.800 euros podem ser interessantes, mas não serão determinantes.

A Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela (CIMBSE) é uma das mais pobres do país (com um rendimento médio de 7.833 euros em 2017). Precisa não apenas de paliativos, mas mudanças estruturais relevantes. Na CIMBSE residem mais de 213 mil pessoas, em 2001 tinha 257 mil habitantes e em 2011 233 mil (perdeu 20 mil habitantes nos últimos sete anos). Mas ainda somos 213 mil! Por curiosidade, referir que a vizinha CIM Beira Baixa tem 80 mil habitantes, em 2001 tinha 94 mil, e a CIM Viseu Dão Lafões tem 252 mil habitantes e em 2001 tinha 275 mil. É, obviamente, para os que, todavia, residem na região que as instituições e os dirigentes públicos têm de trabalhar. É para eles que, em primeira instância, todos temos de trabalhar. São os que vivem nestas comunidades os primeiros destinatários, clientes e parceiros, de todas as iniciativas, eventos e estratégias que se promovam na região.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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