Capitalidade cultural

“Todo um território que confere à Guarda uma capitalidade que raramente teve ao longo dos seus mais de 800 anos de história. Todo um território que tem no meio, e como centro nevrálgico e capital cultural, a Guarda.”

A Candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura 2027 tem sido um desiderato assumido pela comunidade da maior relevância para os guardenses e mesmo para a região. Coletivamente, poucas foram as propostas tão unânimes como a candidatura à capitalidade cultural. Poucas foram as ideias que germinaram e cresceram com uma dimensão regional e com uma aprovação tão generalizada – direi mesmo que nos últimos anos não recordo nenhuma outra. A Cultura tem essa vocação e promove a mais elevada das aspirações.
Pensava eu que a ideia tinha sido adotada por todos, muito para além das diferenças partidárias ou das opções políticas, mas dizem-me que não é bem assim… A defesa da Candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura devia ser uma aspiração e um propósito comum, mas não é.
Os grandes projetos não têm dono, as grandes ideias podem ter autor, mas germinam por entre o coletivo muito para além das vontades pessoais ou das limitações individuais. E esta Candidatura é um desafio de todos, dos cidadãos da Guarda e dos cidadãos de toda a região que se revêm neste projeto ambicioso. Não nasceu apenas para a Guarda, nasceu para unir toda uma região. Começou por ser uma ideia burilada há 20 anos por Jaime Alberto do Couto Ferreira, mas seria Álvaro Amaro, Chaves Monteiro, Sérgio Costa e Victor Amaral a darem-lhe corpo e alma – não será uma metamorfose seniana, nem encerra a dialética entre a permanência e a mudança, mas é uma metamorfose de modernidade e afirmação cultural do povo do interior.
«O Apelo do Interior» é um «projeto regional, participado por 17 municípios, que pretende desenvolver a Beira Interior a partir da sua dimensão cultural». Este é um empreendimento «de todos e para todos». Que conquistou para a Guarda uma capitalidade ímpar que não podemos abandonar. Nunca outro projeto uniu e agregou à volta da Guarda todos os concelhos da região como este – integram a Candidatura os municípios de Aguiar da Beira, Almeida, Belmonte, Celorico da Beira, Covilhã, Figueira de Castelo Rodrigo, Fornos de Algodres, Fundão, Gouveia, Guarda, Manteigas, Mêda, Pinhel, Sabugal, Seia, Trancoso, Vila Nova de Foz Côa, e ainda o NERGA, o Politécnico da Guarda, a Universidade da Beira Interior, a Universidade de Salamanca, a Universidade de Coimbra, a Diocese da Guarda, a que se juntaram ainda os municípios espanhóis de Ciudad Rodrigo e Bejar e, institucionalmente, a Comunidade Autónoma de Castilla y Léon. Todo um território, raiano, de fronteira, do interior, das Beiras e Serra da Estrela, unido à volta de uma causa, a cultura. Todo um território que confere à Guarda uma capitalidade que raramente teve ao longo dos seus mais de 800 anos de história. Todo um território que tem no meio, e como centro nevrálgico e capital cultural, a Guarda.
Concorrendo com Aveiro, Braga, Coimbra, Évora, Faro, Funchal, Leiria, Oeiras, Ponta Delgada e Viana do Castelo, a Capital será escolhida no próximo ano e receberá para a implementação do seu programa pelo menos 25 milhões de euros. O impulso e o relevo da Capital Europeia da Cultura 2027 é imenso e pode ocorrer em pequenas cidades como a Guarda ou em modernas urbes como Oeiras (que vai investir cerca de 400 milhões de euros na preparação, programação e implementação da candidatura).
Estranhamente, por ignorância ou desconhecimento, alguns dizem que, todavia, não foi feito nada. O caminho faz-se caminhando, diria Machado, e a Candidatura andou muito mais do que aquilo que se vê… mas a vida cultural nunca é percebida de igual forma por todos. Ainda bem. Até porque é preciso fazer muito mais. Mais preocupante é que o programa da candidatura “Pela Guarda”, que venceu a as eleições autárquicas, não dizia uma palavra sobre a Candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura – e durante a campanha eleitoral pouco se falou de cultura e quase nada sobre este desiderato: Um erro, um lapso ou uma opção dos candidatos. Mas governar também é saber identificar os lapsos e caminhar ou fazer obra nos campos que antes não se vislumbravam. É esse o repto que deixo a Sérgio Costa: que abrace esta obra imaterial e cosmopolita, esta capitalidade cultural e esta liderança regional, única e extraordinária. Como escreveu Pedro Gadanho, «no sentido estratégico mais amplo, a coligação de cidades reunida para esta Candidatura já é ganhadora. Com a cultura como ideia agregadora, podemos começar a preparar esta região interior para um futuro resiliente, que contraria a desertificação natural e humana a que ainda assistimos. E, nesse sentido, o protagonismo desta candidatura é de todos os municípios envolvidos e dos seus cidadãos, superando divisões e desencontros para abraçarem um projeto coletivo verdadeiramente ambicioso».

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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