A vingança do pangolim

Escrito por Albino Bárbara

Fugindo um pouco à teoria da conspiração e à teoria do (quase) tudo, aceitemos, por princípio, a base da pirâmide de Maslow e asseguremos a nossa sobrevivência.

Os animais, sobretudo os mamíferos, criam entre si e o ser humano fortes vínculos, razão pela qual, muitos de nós, temos em casa um animal de estimação. Darwin afirmou que os sentimentos não eram algo exclusivo dos seres humanos. Nos séculos XVI e XVII nos julgamentos por bruxaria alegava-se que a bruxa tinha o demónio em forma de animal e nalguns quadros pintados por Hans Grien e Goya aparece o diabo representado por bodes e por gatos. Em “Ghost – o espírito do amor”, protagonizado pela belíssima Demi Moore, o gato dá conta do fantasma que paira no ar.
A quarentena que a maioria dos portugueses está a cumprir obriga-nos a perceber que há pessoas completamente exaustas, enquanto outras, que sofrem de outras penas, tocam “o burrinho” para a frente. É assim o ser humano. Está no ADN de cada um.
Deixando de lado a velha teoria do erro, dos contos fantásticos da princesa e do lobo, do capuchinho vermelho, da tartaruga e da águia ou da carochinha e do João ratão, o que verdadeiramente me espanta é quando o ser humano supera as suas próprias limitações e consegue rir e brincar com o sofrimento:
aquele homem, em cadeira de rodas, perdera as duas pernas num trágico acidente de viação, contempla embevecido o filho que acaba de nascer. De forma engraçada repete para os amigos o que ouviu de uma senhora que estava na maternidade e que percebeu que ele era o pai do recém-nascido: “Mas que milagre! O bebé nasceu com as duas perninhas”.

A senhora, com uma visível paralisia motora, vai no autocarro. O motorista simpático para em frente ao hospital e pergunta-lhe se precisa de ajuda ao que ela, sorrindo, lhe diz: “Oh homem, siga. Eu vou mas é pro arraial!”.

A vida é isto mesmo. Tem alegrias e tristezas. O que dá para rir dá para chorar e quando alguém se sente no buraco é absolutamente necessário encontrar uma forma de sair.
O pangolim é o animal mais traficado no mundo. Dizem que é uma iguaria sem igual, um petisco dos céus e até as escamas são usadas na medicina tradicional de muitos países do oriente. O pangolim, para além de estar em extinção, defende-se sendo portador de um vírus 99% idêntico ao célebre coronavírus e isso leva-nos a pensar em tanta coisa, obrigando-nos a perguntar: será que o pequeno mamífero selvagem se fartou de ser caçado, vendido, traficado, comido e, farto de ser explorado, resolveu falar com os amigos mais próximos, também eles comercializados, como sejam a cobra surucucu, o morcego vampiro, o rato toupeiro e todos juntos arranjaram maneira de se vingarem. Ah pois… Os animais são nossos amigos, mas há sempre um mas, e a natureza tem destas coisas…

Neste cardápio do ano do rato chinês percebemos quão deliciosos são os pratos e quão difícil a tarefa da escolha, pois só a leitura dos mesmos faz crescer água na boca:
Sopa de cobra. Sopa de morcego. Bacon de rato. Omelete de bicho-da-seda. Espetadas de insetos. Aranha frita. Lagarto frito. Cavalo-marinho com óleo de soja. Escorpião no espeto. Cachorro (cão) assado. Chop suey de rato, tudo regado com vinho de arroz ou amarelo e para digestivo uma excelente aguardente de cobra.

Ainda não estamos no pico da pandemia. Vamos levar isto muito a sério. Está nas nossas mãos. Fiquemos em casa. É a luta, a grande luta, pela sobrevivência.

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Albino Bárbara

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