A Covilhã, cidade moldada pelo frio e pelo granito, tem um talento curioso para ignorar o que é seu. Não é falta de qualidade, muito menos de quantidade. Se falarmos de música, o número de músicos covilhanenses ou residentes que poderiam dinamizar a cena cultural local é esmagador. Numa contagem breve e informal de nomes da minha geração já ultrapassa os 30 nomes, e, se estendermos a busca à Guarda ou a Castelo Branco, facilmente chegaríamos a 100. O que nos leva à questão inevitável: como é que uma cidade com tanta gente a fazer música não é, ela própria, uma cidade musical?
Não se trata de falta de iniciativas. Há projetos louváveis, como a BEYRA ou a Orquestra Sem Fronteiras, mas não chegam para que a Covilhã se assuma, com orgulho e estrutura, como um polo cultural ativo. É como se a cidade cultivasse músicos para exportação, sem nunca lhes dar espaço suficiente para se enraizarem. Criamos intérpretes e compositores, mas falhamos em oferecer-lhes palcos e oportunidades justas.
O conceito de “prata da casa” parece não se aplicar aqui. É uma expressão que, noutros lugares, significa orgulho no talento local, investimento na sua projeção e continuidade. Aqui, porém, a prata da casa brilha na sombra, com oportunidades esporádicas e frequentemente injustas.
E o que falta? Falta o que já devia existir. Falta, por exemplo, uma verdadeira Bolsa de Criação Artística, um Ciclo de Concertos regulares, uma valorização da diversidade cultural da cidade, que estimule a produção local e evite que os artistas tenham de sair da cidade para serem levados a sério. Falta uma rede empresarial ligada à música, que estabeleça parcerias com uma escola profissional que tem formado gerações de músicos. Falta um plano que traga regularidade ao panorama cultural da cidade, para que os eventos musicais não sejam meros acidentes felizes, mas sim um reflexo daquilo que realmente somos.
A Covilhã não deveria ser a cidade criativa da música, como o foi através da Covilhã, Cidade Criativa do Design em 2021, mas de forma constante e regular? E sim, bem sei que os mais conservadores poderão usar o argumento de que não caberá à câmara esta função, mas é aqui que me pronuncio, com base na ex-ministra Graça Fonseca, que em 19 de dezembro de 2020 afirmou: “Apoiar as artes é investir na democracia.”
Porque não é só na música que esta falta de aposta se sente. A cidade recebe festivais como o WOOL, que transforma as ruas em telas, o FIADA, que cruza património e criatividade, o Natal com Arte, que dá um brilho diferente ao inverno, ou o Diafragma, que enquadra a cidade através da fotografia. Sem esquecer os festivais organizados pela Quarta Parede, Teatro das Beiras e ASTA, que há anos provam que o teatro e as artes performativas também podem resistir longe dos grandes centros.
E há ainda as bandas filarmónicas, verdadeiras guardiãs da tradição musical da Covilhã e de todas as regiões da cidade. A Banda da Covilhã, com o seu legado centenário, continua a formar músicos e a levar a cultura às ruas, às festas populares e às grandes salas, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações. Como ela, tantas outras associações culturais, como as Adufeiras da Casa do Povo do Paúl ou o coletivo Profound Whatever, espalhadas pelos bairros e freguesias, sobrevivem à custa da resiliência dos seus membros, que insistem em criar, ensaiar e atuar, muitas vezes sem apoios ou reconhecimento.
Estas estruturas não são apenas símbolos do passado; são um reflexo daquilo que a Covilhã pode e deve ser: um lugar onde a arte e a cultura não existem apenas de forma esporádica, mas como parte integrante da identidade da cidade. Contudo, continuam a lutar para que a sua voz seja ouvida, para que a sua presença seja reconhecida. E se a Covilhã quer afirmar-se como uma cidade que valoriza a sua identidade cultural, então não pode continuar a tratar a cultura como um luxo ou um evento ocasional. Ela deve ser um compromisso contínuo, uma aposta real no talento das suas gentes.
A Covilhã já foi uma cidade-fábrica, onde o ritmo dos teares ditava o compasso da vida. Hoje, podia ser uma cidade-palco, onde as mãos que antes puxavam fios agora dedilham cordas e onde as vozes que ecoavam nas fábricas agora se fazem ouvir em microfones. Mas para isso, é preciso mais do que talento e boa vontade. É preciso uma cidade que se orgulhe dos seus músicos antes de eles precisarem procurar reconhecimento lá fora.
E se há algo que devemos aprender com Mumford (1961) e Cosgrove (2003), citado em Diniz e Mendes (2018), é que a cidade e a arte são indissociáveis:
“A relação entre a cidade, arte e música está presente na própria conceituação do fenómeno urbano expressada por autores que caracterizam a cidade como um ‘símbolo de arte’ (MUMFORD, 1961) e uma ‘obra de arte coletiva’ (COSGROVE, 2003).”
Platão debatia, na sua República, que para se tornar um cidadão perfeito, o indivíduo deveria praticar a ginástica – para o corpo – e a educação musical – para a alma. E se esse pensamento permanece válido, então quem mais, senão a entidade que gere a nossa cidade, deveria assumir este papel?
A cultura não nasce do nada, nem se alimenta de discursos bonitos sobre a importância da arte. A cultura precisa de estruturas, de financiamento, de um ecossistema que permita a quem cria continuar a criar sem precisar de abandonar a terra onde começou. Enquanto isso não acontecer, a música que poderia encher as ruas da Covilhã continuará a ser tocada, mas longe daqui.
E isso, mais do que um desperdício, é um erro que a cidade não pode continuar a cometer.
Docs de apoio:
Fonseca, Graça. (2020, setembro 19). Apoiar as artes é investir na democracia. Público. https://www.publico.pt/2020/09/19/culturaipsilon/noticia/apoiar-artes-investir-democracia-1932107
Diniz, G. S., & Mendes, A. A. (2018). A cidade e a música. Geograficidade, 8(Special Issue), 76-89. https://doi.org/10.13159/2238-0205
Sugestão cultural deste mês:
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mar, 2025 Romeu Curto