A inutilidade das coisas

Escrito por Maria Afonso

“Às memórias onde pousamos o calor das mãos. A certas músicas que sempre dançámos. Ao amor vibrante e ruidoso. Ao amor sereno e pacificador.”

Ao suor das casas. Ao vento que destapa a planta dos alicerces. Às paredes que acolhem as telas. Ao olhar das portas entreabertas. Às portas que batem. Às portas que se batem. À luminosidade que invade as casas em dias claros. Aos dias adiados quando nos viramos para o outro lado da cama. Ao bolor bafiento de certos cantos. Aos pequenos motins que agitam a aridez dos dias. Ao nomadismo das mãos quando tacteiam outro rosto e é ainda manhã. À preciosidade dos nomes que lhes atribuímos – Lar. Abrigo. Refúgio. Estação onde emolduramos a vida.
Aos livros amontoados que leremos. Ou não. Às fotografias estampadas aqui e ali. Ao gato que mede a temperatura do olhar. Ao odor do incenso. À turvação que oscila no negrume de certas noites. À imagem desfocada no ar que rareia. À janela que se abre sobre a selva. Às feras que nos pressentem. Aos lobos da infância. À fugacidade dos passos tranquilos. À delicadeza dos pés quando saltitam degraus. Às paragens forçadas em sofás esquecidos.
À voz inaudível que nos fende o peito. Ao riso do alpendre quando inquire a lua. Aos silêncios soltos nos gestos perdidos. Ao espanto dos temporais. Ao chão de madeira e à torneira que pinga. Ao assombro vermelho da lareira. Ao sono solto a pender do pescoço. Às memórias onde pousamos o calor das mãos. A certas músicas que sempre dançámos. Ao amor vibrante e ruidoso. Ao amor sereno e pacificador. À abundância da mesa e aos frutos coloridos. Ao vinho. Aos risos que implodem por dentro. À brancura do leite.
Ao jardim que rega os passos. À cor da romãzeira quando explode. Aos olhos húmidos das janelas. Aos dedos que lhes desenham o silêncio. Às manhãs de domingo. À flor rasgada na pele da cerejeira. À simplicidade das pálpebras antes de adormecer. Ao receio das sombras derramadas na noite. Ao sonho com desencontros e fugazes encontros e portas que abrem para muitos lugares.
À inesgotável tontura dos abismos. Aos ruídos modelados como barcos. Ao rio que se adivinha no vale. Ao planalto onde se ergue a casa. Mas também à planície. À água e à rocha. Às estacas de madeira e às fundações de betão. À cal. À cicatriz profunda da luz e às rugas cavadas. À dissolução das horas. À festa do regresso. Aos anjos que levamos ao colo. À rua logo ali. Ao número da porta e à caixa do correio. Aos amigos que entram e nos trazem mapas. À respiração da idade e aos raros lamentos. Ao murmúrio das divindades que vagueiam lá dentro. À garganta dormente de febre. À praia longínqua e à tranquilidade do mar que ondeia no tecto.
À linha da tua boca onde vou erguer uma casa. Um leito de rio breve.
Para que necessitam os homens de epitáfios, se são eles que edificam as casas?

* A autora escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Maria Afonso

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