A inutilidade das coisas

Escrito por Maria Afonso

A sombra que vai descendo as escadas agarra-se às paredes e faz esmorecer as flores do papel de parede. Sentada num velho sofá segura a luz com as mãos. A pose é de espera. Entre ela e a distância interpõe-se uma solidão incolor. O vestido de alças tem o tom da ausência e permite apenas o presságio da pele. Sabe que lá fora corre um rio por onde as flores navegam. Das montanhas conhece a implosão nos olhos quentes dos náufragos.

A lareira sem sinais de fogo não é mais do que uma utopia projectada na ondulação das cortinas. Um holograma de vazios. Levanta-se acometida por um relâmpago de luz fria. Ainda tenta defender os olhos quando uma meia lua se lhe desenha na face. Corre exasperada pela sala como se fantasmas antigos a mortificassem. Vai de encontro às paredes na manifesta loucura de quem vive há muito na escuridão. Como se a luz golpeasse por dentro. O mundo deixa de girar.

Tinham prometido que haveriam de descobrir distintas formas de levitar. Conhecer o real peso dos corpos. Tomar de assalto o invólucro de cada palavra. Recortar presenças para as untar de querer. Aniquilar desistências e abandonos. As suas mãos ainda percorrem cada vértebra da ausência. Solta os cabelos e uma luz coada trespassa as cortinas. O choro a lembrar o lento deslizar da água quando fere o delta. E os fetos encharcados da chuva a suster o cinzento do céu.

Um bule de porcelana fina e um cavalete na fundura da queda. Sombras chinesas tocam a seda solta de um silêncio enfunado. Nunca se sabe de onde vem o vento, nem que lábios se vão destapar para o sorver. Dança nua, em balões de ar quente, sob o olhar pesado do candelabro. Arrisca tocar na sua sombra sem saber quem é. Num labirinto de velas procura a dor. Tem que perceber se vive quando as flores partirem.

Lá fora, todos os bichos se movem e as heras tomam conta do caminho que leva à casa. Uma mulher de lábios vermelhos, sentada numa cadeira, escuta a surdez que endurece as vidraças. Flores em tons rosa e verde alagam o papel de parede onde as sombras constroem lintéis. Sai de casa como se despertasse de um sonho. Desconhece se as escadas servem para subir ou para descer. Olha para o alto. E é ela o desabrochar de uma flor. Folhas secas como pedaços de pele dormente demoram-se no ar. São a poalha do tempo.

As heras ganham vida e avançam como cobras ondulantes. Fazem cama no meio da sala, como se aquele lugar fosse o centro do mundo. Com o corpo arrefecido vai-se deixando cobrir. Abandona-se à lentidão dos dias. As cortinas retomam o seu lugar na imobilidade das janelas. São demasiado frágeis agora as suas mãos para construir um abrigo. Lembra-se de ele lhe ter deixado uma certa raiva e de, ainda assim, o amar.

Mais do que tudo quer voltar a ouvi-lo dizer – nós vamos descobrir. E se não acontecer, o mundo continuará a girar? E as flores vão regressar? De qualquer forma as montanhas erguer-se-ão.

Deixa que as alças do vestido descaiam sobre os braços. Ignora onde a leva o seu olhar.

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Maria Afonso

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