A inutilidade das coisas

Escrito por Maria Afonso

Hoje [21 março] é o Dia Mundial da Poesia. Estou sentada a uma mesa à espera que as palavras se desenrolem. Tenho que escrever uma crónica e não sei bem do que falar. Reparo que a tarde está a cair bem em frente dos meus olhos. Nuvens carregadas de uma chuva prometida procuram encobrir o sol que tenciona, tão só, seguir o seu caminho. Atrás dos montes uma auréola dourada teima em perdurar. Como se num aperto urgisse dizer algo. Antes do dia se cumprir. Olho. Vejo. Afasto as mãos do teclado para as pousar na mesa. A mesa, de um preto lacado, reflecte o dourado enviado do Oeste. Nunca deixo de me surpreender com as proezas da natureza.

Hoje é o Dia Mundial da Poesia. As notificações das notícias de última hora vão assomando no lado direito do ecrã. Vou deitando os olhos numa ou noutra. Um médico em desespero refere que às vezes lhe apetece levar os italianos que correm pelas ruas a ver os mortos. Que estamos a viver a terceira guerra mundial. Um vídeo mostra os portuenses a cantar o “Porto Sentido” à janela. Em uníssono. Muitas outras notícias. Todas sobre a pandemia do momento. Algumas deixaram de ser notícia. São meros números a somar a outros números. As contas batem certas. Dispensam a prova dos nove. Para nada carecem da prova real.

Hoje é o Dia Mundial da Poesia. A noite está cada vez mais cerrada. Apenas uma pequena clareira teima em segurar as grossas nuvens negras. Ainda se vislumbram tonalidades azuis alaranjadas. Agora já não. As sombras venceram a luz. Sei bem que a manhã voltará. Que a terra tem uma rotação para cumprir. Que hei-de levantar as persianas e ouvir a rua despovoada. O tempo cristalizou. Como um búzio cheio de areia nas mãos de um beduíno. Como uma flor de lis bordada numa tapeçaria desbotada. Viesse o cavalo de Muybridge mostrar como voar e talvez o tempo se sacudisse.

Hoje é o Dia Mundial da Poesia. Noite plena. Estivesse aqui Van Gogh e espalharia tinta amarela por todos os continentes na esperança de lhes injectar felicidade. Encontramo-nos todos no “Quarto em Arles”. Olhamos à nossa volta e desejamos nas paredes um lilás pálido; o chão, apagado, o cobertor de vermelho sangue; a mesa de toilette, laranja; as janelas, verdes… Mas nessa aparente calmaria tudo parece flutuar. Como se a espera por algo se prolongasse no tempo. Ignoramos, às vezes, em que dimensão nos encontramos.

Hoje é o Dia Mundial da Poesia. As minhas gatas despertaram-me à hora habitual. Acariciámo-nos. Da orquídea branca nasceu mais uma flor. Olhei-a, por dentro e por fora. Segurei-a, a mão em concha, para que percebesse o quanto era bem-vinda. O meu olhar ficou preso, por segundos, num anel com pedras da cor do mar Egeu. Num telefonema a voz, amiga e antiga como o meu tempo, leu-me um poema. Espreitei a cerejeira. Abri a janela e inspirei o silêncio secreto. Soube da publicação de uma revista de poesia. Na capa, laranja, um pequeno veleiro continua-se nos ramos de uma árvore. Ou será a árvore que se metamorfoseia em veleiro. Não importa. A poesia também é isso.

Hoje ainda é o Dia Mundial da Poesia. Pergunto-me para que serve a poesia. Mas depressa esqueço a questão. Há coisas que não necessitam forçosamente de ter explicação. A pandemia também não. Apareceu. Vivemos com ela. No meio dela. Desejamos ardentemente que o tempo a distancie. Que a noite se cumpra para que a luz regresse sem dor. Nesse dia vamos ver o mundo com as mãos e tocaremos uns nos outros. Concluiremos que afinal sempre existimos.
Hoje, talvez por ter sido o Dia Mundial da Poesia, assaltou-me este excerto de um poema de Charles Bukowski. É com ele que vou tentar adormecer.
.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

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Maria Afonso

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