Cara a Cara

«Muito há a fazer pela salvaguarda do Castro do Jarmelo»

Escrito por Jornal O Interior

P – Qual é a importância dos achados descobertos nas últimas escavações realizadas no Castro do Jarmelo?
R – A intervenção arqueológica de 2019 permitiu registar a base pétrea da esquina de um edifício de época medieval, o qual poderá corresponder à desaparecida Igreja de Santa Maria, e uma sepultura associada a este.

P – E que outros achados foram revelados nas campanhas já realizadas no local?
R – O Castro do Jarmelo foi alvo de anteriores intervenções. Em 1998, após a abertura de um estradrão de acesso ao marco geodésico foram recolhidos os primeiros materiais cerâmicos e metálicos datáveis do século XIII. Em 2007, o município da Guarda realizou uma intervenção de restauro e consolidação da muralha e ruínas de alguns edifícios, assim como a recolha de materiais cerâmicos (peças de cozinha, de armazenamento e de transporte de alimentos e líquidos) dos finais do século XV até inícios do século XVIII. Em 2018 foi possível a recolha de materiais medievais (em que se destaca a folha de uma tesoura do século XIII/ XIV), o registo de uma estrutura com cerca de 10 metros de comprimento, a qual foi destruída por um incêndio no final da Idade Média, e o registo de uma camada de argamassa compactada que poderá corresponder ao adro da Igreja de Santa Maria.

P – Qual é o objetivo destas escavações? Há algum projeto/ trabalho concreto no castro do Jarmelo?
R – As campanhas arqueológicas têm como objectivo perceber a ocupação humana deste sítio em época medieval. Ou seja, as vivências do quotidiano, os espaços habitacionais e/ ou produtivos, o papel geoestratégico do sítio, através do estudo dos vestígios materiais, quer sejam um pano de muralha ou um simples fragmento de cerâmica pertencente a um pote ou panela. As escavações encontram-se integradas no Projecto de Investigação Plurianual em Arqueologia intitulado “Da Periferia à Fronteira: Povoamento Medieval do Médio Coa Séculos X-XIII” aprovado pela DGPC para o quadriénio 2017-2021. Os dados coligidos integram-se na investigação que estamos a realizar no âmbito do doutoramento em História Medieval, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

P – As peças e outros objetos descobertos nestas escavações vão algum dia ser expostas ao público? Onde?
R – Esperemos que sim. Um primeiro contacto informal do público com os materiais ocorrerá dia 29 de setembro, no Jarmelo, no decorrer das Jornadas Europeias do Património. Todavia, antes de integrarem qualquer tipo de exposição, é necessário o restauro e/ ou conservação das peças (sobretudo nos artefactos metálicos) e principalmente o seu estudo. A peça/ artefacto é parte de uma narrativa, o seu valor histórico advém do seu contexto e da transmissão deste ao público. Sem isto a diferença para uma tigela partida em nossa casa é quase inexistente.

P – Tendo em conta a atribulada história do Jarmelo, acha que o castro e a área envolvente merecem uma campanha mais abrangente e consistente?
R – Penso que é o desejo de todos os jarmelistas. A começar pelo fim dos sucessivos danos ao património, como a colocação de antenas de telecomunicações e de videovigilância, ou a destruição e expolição de materiais com o recurso a detectores de metais. Passando, depois, pela conservação de estruturas em risco de ruína, criação de percursos acessíveis e painéis interpretativos, e arranjo paisagístico da zona envolvente e recinto da feira. Muito há a fazer…

P – O que falta para isso acontecer?
R – O Artigo 3º da Lei de Bases do Património Cultural define como tarefa fundamental do Estado a salvaguarda, estudo e valorização do património. Porém, é conhecido o crónico desinteresse e desinvestimento deste nas questões culturais e patrimoniais, salvo raras excepções, principalmente de iniciativa local. Em 2018, a Junta de Freguesia de Jarmelo S. Pedro, com o apoio técnico do município da Guarda, submeteu uma candidatura ao Programa Valorizar – Linha de apoio ao turismo do interior, a qual até hoje não obteve resposta. Em suma, o que falta é uma melhor articulação das entidades públicas responsáveis pelo património, e financiamento. Mas um financiamento, que embora possa ser diminuto, seja sustentável e siga um planeamento a médio prazo.

Perfil de Tiago Ramos:

Profissão: arqueólogo/ bolseiro de Doutoramento da FCT

Idade: 30 anos

Naturalidade: Guarda (com ascendência familiar do Jarmelo)

Currículo: Licenciado em Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mestre em Arqueologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e doutorando em História Medieval na Universidad de Salamanca (Espanha)

Livro preferido: “Animal Farm”, de George Orwell

Filme preferido: “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg

Hobbies: Leitura, música, agricultura, cães

Sobre o autor

Jornal O Interior

Deixar uma resposta