Cara a Cara

«Esta pandemia tornou evidente que não sobreviveremos como sociedade se não tivermos um Serviço Nacional de Saúde mais robusto»

Escrito por Jornal O Interior

Fátima Vale

P – Quantos testes já foram analisados pelo Laboratório de Patologia Clínica da Unidade Local de Saúde da Guarda? O serviço também está a trabalhar para fora do distrito?
R – Até ao fim da última semana fizemos 5.500 testes para pesquisa de SARS-CoV2. Tendo em conta que os primeiros testes realizados em utentes no serviço de Patologia Clínica foram no dia 4 de março e que até ao dia 15 desse mês tivemos um número inferior a 50 testes, consegue-se ter a noção que houve um aumento de forma muito acentuada depois dessa data. O laboratório continua a receber amostras de outros hospitais fora do distrito, embora em menor número do que inicialmente.

P –Acha que já se passou a fase de maior fluxo de testes?
R – Há muitas variáveis a considerar: a capacidade que todos teremos de cumprir as regras impostas, nomeadamente o distanciamento social e a utilização de máscara. Apesar de já termos algum conhecimento sobre o vírus, ainda desconhecemos muito da forma como este interage com os humanos, que não é linear e é influenciada por inúmeros fatores. A necessidade de testes dependerá de todas estas variáveis.

P – Há capacidade para fazer mais, tendo em conta os recursos humanos e materiais existentes?
R – Há sempre capacidade para fazer mais. Tendo em conta os recursos e devido à variação diária das necessidades, o serviço tem feito um grande esforço de reorganização. Sempre nos impusemos processos de melhoria contínua. Entendo que é uma obrigação preparar o futuro imediato. Durante este período o laboratório teve muito menos solicitações noutras áreas e foi possível deslocar profissionais destas para a da biologia molecular. A partir de agora o laboratório, além das solicitações que tinha antes, terá mais esta exigência.

P – Neste momento, como é feita a escala dos profissionais que trabalham no laboratório?
R – Mudou tudo de forma muito repentina e tivemos de a adaptar aos novos fluxos de trabalho. Como os recursos humanos são escassos, quase todos os profissionais desempenham funções em mais do que uma área. Houve necessidade de deslocar em exclusividade mais profissionais para a área onde se realizam os testes, bem como de reforçar alguns turnos. A nossa prioridade sempre foi dar os resultados com tempos de resposta o mais curtos possível tendo em conta a natureza dos testes. Sabemos que a espera cria muita ansiedade em todos.

P – Há técnicos infetados ou em quarentena? Quais são as consequências para o serviço?
R – Felizmente, até ao momento, não. O nosso histórico de trabalho e o tipo de amostras que sempre recebemos para o diagnóstico de outras doenças infeciosas, nomeadamente tuberculose, faz com que as normas de segurança biológica estejam bem interiorizadas. No entanto, o grande aumento do volume de trabalho, o cansaço e o stress são fatores facilitadores de acidentes.

P – Como vê os próximos tempos? Quando poderemos ter a situação de pandemia normalizada e a vida voltar ao normal?
R – É difícil prever. Como disse, as variáveis a considerar são muitas e interagem de maneiras muito diferentes, não é uma questão matemática, mas sim biológica. Não conhecemos ainda o suficiente sobre o vírus e como ele se irá comportar, por exemplo, no Verão. Os vírus que circulam em Portugal, por exemplo, já são geneticamente diferentes dos que circulam na China. Não sabemos ainda se essas diferenças terão ou não impacto na sua patogénese. Podemos tentar extrapolar, considerando o exemplo de outras epidemias, como a da gripe em 2009, mas não sabemos se terá um comportamento semelhante. Para começar propagou-se muito mais rapidamente e não houve tempo para nos prepararmos melhor. Esta pandemia tornou evidente para todos que não conseguiremos sobreviver como sociedade se não tivermos um Serviço Nacional de Saúde mais robusto, dotado de mais recursos humanos e materiais. Precisamos de tempo e a ciência trará soluções. Para já temos de tentar voltar com a nossa vida a uma normalidade que será muito diferente daquela que estávamos todos habituados e, isso sim, será um exercício difícil de fazer.

Perfil de Fátima Vale:

Diretora do Serviço de Patologia Clínica da Unidade Local de Saúde (ULS) da Guarda

Idade: 52 anos

Naturalidade: Guarda

Profissão: Farmacêutica a exercer atividade na área de análises clínicas

Currículo: Desde abril de 2012 é diretora do Serviço de Patologia da ULS Guarda; Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto; Especialista em análises clínicas; Especialista em Genética Humana; Assistente convidada da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior desde 2004 e auditora do Instituto Português de Acreditação.

Livro preferido: Não tenho “um” livro preferido. Estou a ler “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. O último livro que li foi “O Pianista de Hotel”, de Rodrigo Guedes de Carvalho

Hobbies: Ler, ir ao cinema, praticar desporto, cozinhar.

Sobre o autor

Jornal O Interior

Deixar uma resposta