Cara a Cara

«Com muito boa vontade de todos temos levado o nome da Guarda além fronteiras»

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Escrito por Efigénia Marques
P – Nasceu em Espanha, como veio parar à Guarda? R – Os meus pais estavam lá a trabalhar e rebentou a guerra. A minha mãe conseguiu vir para Portugal com quatro filhos atrás e o meu pai ficou lá, mas veio ter, mais tarde, com a minha mãe à aldeia. P – Veio com quantos anos? R – Tinha 5 anos. P – Ou seja, praticamente toda a sua vida, daquilo que se lembra, viveu em Portugal? R- Tudo, tudo, na aldeia da minha mãe, que era de Vila Boa, no concelho do Sabugal. O meu pai era do Soito, no mesmo concelho. Eles eram “arraianos” e emigraram para Espanha. P – Foi uma das fundadoras do Conjunto Rosinha, como surgiu? R – Sim. Quando fui para o Centro Cultural as atividades funcionavam naquela altura com o maestro Padre Bernardo Terreiro. Ele dirigia o orfeão, um rancho que já tinha um grupo folclórico, e no fim das atuações do Orfeão havia sempre um bocadinho de música tradicional. Havia quem tocava acordeão, bandolim e criava-se uma orquestrazinha. Aquilo começou a tomar umas proporções maiores, fomos compondo umas canções e as pessoas gostavam. Houve um dia em que fomos atuar ao colégio da Cerdeira do Côa com o rancho e o orfeão, então o padre Bernardo Terreiro disse “Rosinha, eu acho que já era altura de pormos um nome ao conjunto, porque vocês já têm um reportório para preencher um tempinho e era bom”. E eu respondi que estava tudo bem. Era eu, o senhor Humberto, o João Emílio, que trabalhava na Casa Armando, na Guarda, e outro senhor, que, graças a Deus, ainda é vivo. E tínhamos a nossa menina, a Helena Rodrigues, que era a nossa mascote. Ela tocava e toca muito bem acordeão e integrou-se no folclore e no conjunto. Foi então que o padre Bernardo escolheu o nome do grupo, o Conjunto Rosinha, e assim ficou até hoje. P – E como viu o facto do conjunto de ter o seu nome? R – Na altura fiquei contente e gostei, porque também era uma coisa que eu fazia muito gosto em participar, tal como ainda hoje. Eu entrei para o Centro Cultural da Guarda em 74 e por lá permaneço. P – E como é manter-se no ativo do Conjunto Rosinha com 90 anos de idade? R – Por amor à camisola, por amor à música, que eu gosto, por amor aos meus colegas, que alguns ainda se conservam. E a acordeonista continua a ser a Helena Rodrigues. Tinha 13 anos ou ia para 14 quando se juntou a nós e este ano já faz 60. Foi sempre acordeonista do folclore, do conjunto. Em todas as atividades que tenham acordeão a Helena estava lá. P – Como é que o grupo está neste momento a nível de solicitações? R – Estamos bem, embora na pandemia estivemos um pouco parados, mas agora já temos atuações. O mês de junho está praticamente todo preenchido. No sábado fomos atuar a Braga, num festival de folclore, e chegámos aqui a casa eram quatro da manhã. À uma da tarde de domingo já estávamos em Gonçalbocas com o folclore e depois seguimos para a Corujeira. Agora o mais próximo é sexta-feira, nos Galegos, e no sábado temos outro festival de folclore. E permito-me a muita animação na nossa cidade, na Praça Luís de Camões, na Guarda Gare. Vamos animar a nossa cidade que também precisa e nos conhece e nós também tanto gostamos e gostamos muito de atuar para o nosso povo e a Guarda é a Guarda, não é? Foi onde acabei de me criar, tinha 7 anos quando vim para cá. Casei aqui, foi aqui que nasceram os meus filhos e por aí fora, com muitas atuações e com muita boa vontade de todos temos levado o nome da Guarda além fronteiras. Já fomos também às nossas ilhas e somos sempre muito bem recebidos por todos, porque também fazemos com muito prazer e gostamos muito de comunicar com as pessoas. P – Em termos da composição do conjunto, porque, infelizmente, alguns elementos já faleceram, tem sido fácil a sua substituição? R – Foi e continua a ser, porque da minha geração estão lá dois ou três e alguns que entraram depois. Mas para a nossa juventude o folclore não lhes diz nada. Eles gostam mais de discotecas do que destas diversões que são saudáveis e então vemo-nos com dificuldade para arranjarmos novos elementos, tanto para o conjunto como para o folclore. P – Quais são as expectativas para o futuro do Conjunto Rosinha? R – Eu já não tenho muito para dar derivado à minha idade, já são muitos anos de cantorias, do folclore, do Conjunto Rosinha, também fiz parte do Orfeão muitos anos e de outras atividades da cidade. Ajudei o que pude e participei onde me chamavam e continuarei a ir, só que já não posso prometer muita coisa porque a idade já está avançada, não é? Quanto ao futuro do Conjunto Rosinha será um pouco difícil porque a ensaiadora, quem nos ajuda, é a Helena Rodrigues e outra pessoa com a capacidade dela não há. ______________________________________________________________________

ROSA NUNES ANTUNES

Idade: 90 anos Naturalidade: Espanha Profissão: Doméstica Filme preferido: “Amália – O Filme”, de Carlos Coelho da Silva Hobbies: Costura, Tratar das Flores

Sobre o autor

Efigénia Marques

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