Cara a Cara

«A nossa vacina atua numa pessoa doente, como noutra pessoa que não esteja»

Escrito por Pedro Duarte

Entrevista a Dalinda Eusébio, Bolseira/Doutoranda de Biomedicina na Universidade da Beira Interior

P – Recebeu financiamento da FCT para desenvolver uma nanovacina para a Covid-19. Em que é que consiste exatamente? O que é uma nanovacina?

R – Basicamente o contexto de nanovacina, comparando com o contexto de uma vacina normal, significa que esta é à escala nanométrica. O contexto é o mesmo, é uma vacina normal. Tem a ver com o seu “tamanho”, digamos.

P – Não há então nenhuma diferença face a uma vacina “convencional”?

R – Entrando mais nessa questão da diferença… A nossa vacina, que vamos desenvolver, tem muitas diferenças relativamente a uma vacina “convencional”. Por exemplo, uma vacina convencional só tem uma vertente preventiva, enquanto que a nossa vai ter tanto uma vertente preventiva, como uma vertente terapêutica. Essa é, realmente, uma das grandes vantagens.

P – Isso quer dizer que a vossa vacina vai poder ser utilizada em alguém que efetivamente já tem sintomas da doença?

R – Exatamente. Ou seja vai poder ser administrada tanto numa pessoa que já tenha uma infeção estabelecida – vai localizar as células que estejam infetadas e atuar nesse sentido – e também vai ativar a via tradicional, mais preventiva que, caso ocorra uma infeção futura, irá ser mais rápida a nossa resposta imunitária. Essa já é a parte que corresponde às vacinas convencionais. Portanto, tanto atua numa pessoa que já esteja doente, como numa pessoa que não esteja doente.

P – Essa eficácia numa vertente terapêutica… significa que uma pessoa que tenha sintomas graves – eventualmente esteja internada nos Cuidados Intensivos – pode-lhe ser administrada esta vacina?

R – Sim, sim, à partida sim. A parte terapêutica vai no sentido de destruir as células afetadas e, à partida é pressuposto que a pessoa melhore, sim.

P – E em relação a efeitos secundários?

R – É assim: as vacinas têm sempre certos efeitos secundários associados. É claro que nós quando desenvolvemos uma vacina queremos que isso não aconteça, não é? Os efeitos secundários mais comuns – numa vacina – são a febre e alguma inflamação local, em termos de injeção. O nosso tipo de vacina consegue combater estes dois efeitos secundários porque não vai ser injetada “intramuscularmente”, como costuma ser. E também como a nossa vacina não é constituída pelo próprio vírus – como algumas são –, ou por constituintes do próprio vírus, mas tem apenas a sua frequência genética, torna-se mais segura nesse sentido.

P – Relativamente a essa questão do modo de aplicação, que sabemos que é em pó…

R – Exatamente.

P – …pode clarificar como será mesmo administrada?

R – Sim. Normalmente, a grande parte das vacinas são líquidas, não é? O que nós propomos fazer é converter a vacina líquida numa formulação por pó seco, como me estava a dizer. Depois ela será administrada via intranasal. Nós escolhemos este modo de administração, digamos, porque a via intranasal é a via primária de entrada do vírus então faria sentido, realmente, escolher esta via.

P – Neste momento qual então a etapa em que se encontra o projeto?

R – Como lhe disse, nós não usamos partes do vírus, usamos uma pequena sequência genética do vírus, nomeadamente duas proteínas de que se fala muito nas notícias, que é a proteína S e a proteína N. Então, neste sentido, nós temos um vetor de “entrega”, digamos assim, para entregar estas sequências que nós queremos. Estas sequências não podem ser entregues “sem nada”, é preciso encapsulá-las num sistema. O que já temos avançado é estes “sistemas de entrega” para as células do sistema imunitário. Ou seja: temos o vetor do DNA, encapsulamos num sistema de “entrega”. A sua superfície vai ser um composto que é facilmente reconhecido pelas células do sistema imunitário. É sempre difícil de explicar estas coisas [risos].

P – Basicamente – e vou falar em termos leigos – já têm o elemento sequenciado, é isso?

R – Essa parte não… Eu vou contextualizar: um outro projeto que estamos a realizar é uma vacina terapêutica e preventiva, só que era inicialmente para o cancro do colo do útero. Ou seja, a única coisa que varia – desta vacina que iremos desenvolver agora para a que já temos – vai ser a sequência genética que temos lá dentro. É só isso que vai modificar-se, então já temos todo o processo feito: sabemos trabalhar com este vetor, obter este vetor de entrega, encapsular este vetor… Essas partes iniciais estão mais ou menos otimizadas para entrega celular. Será uma questão de fazermos, depois, a construção do vetor com as sequências para localizar a Covid.

P – No fundo já têm o meio, falta o conteúdo?

R – Exatamente! Sim, é uma questão depois de termos que voltar para trás, mas estes processos já estão otimizados.

P-Isso será trabalho para desenvolver ainda durante quanto tempo?

R-É assim, este projeto está estipulado para ser desenvolvido durante quatro anos. É uma bolsa de doutoramento… isto por estas etapas iniciais que eu estava a dizer, depois a conversão da vacina em pó – até porque eu vou testar três sistemas de “entrega” e o mais promissor em modelos celulares, ou seja, que mimetizam o nosso sistema imunitário, são desses que realmente vamos aplicar em sistema animal. Depois [desta fase] verificar se são ativadas as vias imunitárias que nós pretendemos em modelos animais. Ou seja, só depois de todas estas etapas é que poderíamos iniciar os ensaios clínicos. Nunca podemos passar estas etapas: primeiro células, depois modelos animais e só depois humanos.

P- Já que fala dessa questão das etapas… há uma grande pressão exercida sobre a comunidade científica para encontrar respostas que permitam combater a covid-19. Como encara esta questão?

R- É assim, as coisas levam o seu tempo não é? Existe uma enorme pressão, claro, e uma responsabilidade acrescida, mas as coisas não podem ser apressadas deste modo. [A procura de uma vacina] não é uma coisa que consigamos apressar. Este projeto – como outro qualquer – tem de ter o tempo necessário para obtermos os resultados pretendidos, para realmente quando chegarmos

à mais à frente (o ideal é sempre chegar aos ensaios clínicos), estar garantido que todas as condições estejam asseguradas, ou seja, a segurança e eficácia da vacina.

P-A vossa vacina é algo que – depois de concluídas todas as etapas – poderá ser produzida em grande escala?

R-Sim. Até porque um das grandes vantagens deste tipo de vacina é o facto de irmos converter numa formulação de pó seco. Ou seja, a vacina não vai precisar de um sistema de refrigeração, e só este facto – de a vacina ser mais estável – vai reduzir os custos com a produção e distribuição.

 

Perfil de Dalinda Eusébio

Bolseira/Doutoranda de Biomedicina na Universidade da Beira Interior

Idade: 25 anos

Naturalidade: Pombal (Leiria)

Currículo: Licenciatura em Bitecnologia, Mestrado em Ciências Biomédicas, ambos na UBI

Hobbies: Desporto e cinema

Livro preferido: O Rei Leão (1994)

Filme preferido: O Código Da Vinci – Dan Brown

Sobre o autor

Pedro Duarte

Leave a Reply