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Variações sobre os livros

Atmosfera Portátil

Apesar da crise económica, apesar de Portugal ter baixos níveis de hábitos de leitura, a indústria livreira e o seu respectivo mercado valem, segundo estatísticas recentes, cerca de 530 milhões de Euros. O último grande negócio foi a compra da editora Dom Quixote pelo grupo Leya. Para um país com a dimensão de Portugal (dimensão geográfica, editorial ou cultural), não deixa de espantar o frenético dinamismo editorial existente. Podemos entrar todos os dias numa livraria (finalmente na Guarda abriu uma, a Bertrand) e todos os dias nos deparamos com imensos títulos novos à venda. Para percebermos o tremendo fluxo editorial português, basta constatarmos os dados mais recentes: em 2007, foram publicados cerca de 40 livros por dia, ou seja, 1250 por mês e cerca de 15 mil num só ano. Há uma clara desproporção entre a oferta e a procura, uma vez que estatísticas levadas a cabo pela Marktest referem que 77% dos portugueses lê menos de um livro por ano e apenas 17% lê dois livros por ano. Tirando o caso especial dos best-sellers (que vendem dezenas de milhares de exemplares), poucos são os escritores que podem almejar vendar alguns milhares de livros ou sequer viver exclusivamente da escrita.

Cada vez mais o livro é entendido como um produto meramente comercial, vendido como se vendem detergentes ou latas de ervilha. O marketing cultural é agressivo e altamente concorrencial. Os best-sellers pulverizam as listas de venda e transformam-se no objectivo primordial dos grandes grupos editoriais. As estantes das livrarias enchem-se de centenas de títulos que pretendem emular o sucesso de obras como “O Segredo” e “O Código Da Vinci”. O romance histórico com laivos de policial moderno, pinceladas de suspense e elementos de esoterismo, abarrotam as prateleiras. E repare-se como até o design gráfico das capas se assemelha de uns livros para outros (títulos a cores berrantes e em relevo, fotografias estilizadas ou imagens misteriosas). Haverá leitores para tamanha avalanche editorial? Seja como for, a verdade é que a ideia de negócio puro e duro instalou-se no cenário livreiro português. Sobretudo desde que, no início deste ano, a Leya irrompeu como um grupo livreiro aglutinador e economicamente poderoso, ao ponto de ter exigido à organização da última Feira do Livro de Lisboa, um espaço só para si (daí a polémica decorrente e o atraso na abertura da Feira). Mas a megalomania dos gestores e administradores de grandes grupos económicos tem os seus preços. Aconteceu recentemente com a falência (agora diz-se “insolvência”) do projecto da maior livraria do país, a Byblos. A grandiosidade excessiva desta livraria revelou que não é o dinheiro nem a ambição desmesurada que garante viabilidade comercial de uma livraria com estas características.

Perante este cenário, não é de espantar que um dos editores portugueses mais experientes – Nelson de Matos, ex-líder da Dom Quixote que editou José Cardoso Pires ou Saramago – tenha saído de cena para regressar à edição em formato intimista, criando uma pequena e independente editora, a Edições Nelson de Matos. Diz Nelson de Matos que agora voltou a ter tempo para ler os manuscritos de jovens escritores e editá-los em edições limitadas de 1000 a 1500 exemplares. Sem pressões de ordem comercial, editorial ou económica. O valor literário das obras é o único que interessa salvaguardar e mostrar ao público. Um regresso ao tempo em que Nelson de Matos podia fruir o gosto pela descoberta e pela aposta em autores menos conhecidos mas de reconhecida qualidade. Claro que ainda existem pequenas editoras, alternativas e que têm uma filosofia editorial diferente da predominante (são as equivalentes às editoras discográficas independentes), mas sentem-se cada vez mais asfixiadas e condicionadas na capacidade de implementação no mercado livreiro e na aceitação das rígidas regras comerciais impostas por esse mesmo mercado. Seria positivo que florescessem editores com a tenacidade de Nelson de Matos, com vontade de trabalhar o livro como objecto cultural e não como produto comercial. Veremos o que nos traz o ano de 2009 a este respeito.

Por: Victor Afonso

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