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UBI desenvolve sistema biológico de tratamento de efluentes domésticos

António Albuquerque testou durante quase dois anos um sistema inovador para remoção da carga residual à saída das ETAR

Um trabalho de investigação, da responsabilidade de António Albuquerque, deu origem a um sistema inovador no tratamento no tratamento de afinação dos efluentes domésticos através de filtros biológicos de leito imerso e fluxo descendente à saída das ETAR. Este método está a ser desenvolvido há dois anos no Departamento de Engenharia Civil da Universidade da Beira Interior (UBI).

O projecto é inédito em Portugal e resulta de uma investigação que tinha como objectivo reduzir a presença de residuais orgânicos e de azoto inorgânico (azoto amoniacal e nitrato), característicos de efluentes urbanos de tratamento secundário. Para isso, utilizou-se o filtro biológico (tratamento de afinação) previamente colonizado com biomassa aclimatada a um substrato simples (acetato de sódio). A experiência foi testada durante um ano e meio conseguindo uma remoção da carga residual de carbono, amónio e nitrato «da ordem dos 60 por cento», revela o investigador António Albuquerque, que considera estes resultados «bastante satisfatórios» tendo em conta que a maioria das ETAR existentes no país possuem apenas tratamento primário ou secundário, com taxas de remoção entre os 40 a 80 por cento da carga poluente. «Há uma parte remanescente que ainda é descarregada nos cursos hídricos e nos solos», acrescenta o investigador da UBI, que acredita ser possível aumentar as taxas de remoção destes residuais se o sistema for aplicado à escala real. Por exemplo, colocando um filtro de maiores dimensões a jusante do tratamento secundário.

Na sua opinião, é «urgente» aplicar medidas para a preservação do meio hídrico a montante de todos os pontos de descarga de estações de tratamento «e não só nas zonas classificadas como sensíveis pelo Decreto-Lei 152/97, que são obrigadas a possuir nível de tratamento terciário». Assim, acredita, Portugal poderia cumprir os objectivos impostos pela Comunidade Europeia, através da Directoria Quadro da Água, e as metas traçadas no Plano Nacional da Água, no que respeita à redução dos impactes ambientais negativos e à reutilização das águas residuais. Segundo António Albuquerque, a inclusão de um tratamento de afinação nas ETAR poderá permitir a reutilização das águas residuais «na agricultura, como corrector orgânico e fertilizante, rega de espaços verdes, lavagem de espaços públicos e a utilização doméstica e industrial», desde que não inclua o contacto directo. «A sua utilização para a recarga de aquíferos e utilizações domésticas e industriais, que não envolvam o seu consumo, deverão ser consideradas apenas após avaliação prévia da carga bacteriológica associada e dos possíveis riscos sanitários envolvidos», alerta.

Os resultados, já apresentados em várias conferências, serão novamente divulgados em Maio no Simpósio de Hidráulica e Recursos Hídricos dos Países de Língua Oficial Portuguesa, de modo a «sensibilizar» as entidades responsáveis pela gestão da água a testarem o projecto num caso real para verificar os resultados obtidos em laboratório. Os responsáveis do projecto estão a contactar as entidades competentes para que o estudo seja experimentado «numa ou duas ETAR de dimensão reduzida, durante um ano».

Liliana Correia

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