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Outras toxicodependências

Toxicodependência: Estado de dependência física e psíquica de certas substâncias tóxicas, que repetidamente tomadas, modificam a sensibilidade orgânica e as funções vegetativas.(in: Dicionário da Língua Portuguesa on-line)

Numa destas segundas-feiras, pelas oito da manhã, quando me deslocava para a escola, observei com mais atenção algo que noutro dia qualquer me passaria despercebido e me deu o mote para escrever este artigo. Reparei que as tascas e cafés por onde passava, à semelhança, provavelmente, de outros milhares de tascas e cafés deste país, estavam a essa hora cheias de indivíduos que, para iniciarem mais um dia de trabalho, bebiam uns bagaços, uns traçados, uns branquinhos, uns cafés e/ou fumavam uns cigarros.

Mais tarde, na escola, observei companheiros de ofício que após cada toque para intervalo, quase por reflexo pavloviano, corriam para o bar e ansiavam por um café, entre os muitos que tomariam nessa manhã e, ainda com a chávena na mão, corriam em seguida para a sala de fumadores (por enquanto permitida nas escolas) tentando nos minutos de intervalo que restavam estripar mais um dos muitos cigarros destinados a esse dia. Para cúmulo, a senhora Ministra da Educação tem maltratado e desconsiderado os docentes e as “doses” não têm parado de aumentar! Também bancários, empresários e outros profissionais, pelo seu dia-a-dia mais ou menos stressante, encontram nestas substâncias (nicotina, álcool e cafeína) alívio e ânimo para enfrentarem e aguentarem mais um dia de trabalho. Mas o que é que álcool, cigarros e café têm em comum? É sabido que todos provocam grande dependência física e psicológica e, porque contêm substâncias nocivas para a saúde, deverão, sem receios ou eufemismos, ser consideradas drogas.

Nesse caso estaremos perante toxicodependências e serão os indivíduos que delas dependem, em maior ou menor grau, no uso singular ou combinado de cada uma destas substâncias, toxicodependentes. Todas as drogas são prejudiciais, no entanto, por uma questão civilizacional, branqueia-se o consumo do tabaco, do cigarro, do café e doutras substâncias nocivas e permite-se a sua venda livre separando-as das outras, das “más”, como a heroína, a cocaína, o haxixe ou o ecstasy. Mas o que é que distingue as toxicodependências “más” das “boas”? Enquanto o estigma e exclusão social predominam nas primeiras, existe um profundo enraizamento e incrustação social das últimas. Expressões como: “Vamos tomar um copo?”, “Arranja-me um cigarro”, ou “Agora um café e um cigarro vêm mesmo a matar!” fazem parte do nosso quotidiano, socializam e potenciam o espírito de grupo. Todos temos amigos ou conhecidos que no seu emprego ou dia-a-dia têm o desejo incontrolável de ir fumar um cigarro, beber um café ou tomar um copo. Se não o fizerem de imediato começam a ter alterações de humor, dificuldades de concentração, falta de motivação para trabalhar, irritabilidade, stresse, fadiga, cefaleias, entre outros efeitos secundários associados à privação das substâncias contidas naqueles produtos.

Por tudo isto, representam para a sociedade um problema relativamente grave, pois são indivíduos cujo quotidiano também depende essencialmente de drogas e que representam, a curto e médio prazo, custos económicos e emocionais elevados para o Estado e para as famílias em caso de morte ou invalidez, resultante de acidentes vasculares cerebrais, ataques cardíacos ou neoplasias, entre outras doenças, resultantes do abuso destas substâncias.

Por: José Carlos Lopes

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