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O princípio do fim?

O jornalismo não é o espelho da realidade. É uma construção, com fragmentos de “estórias”, num jogo de relações com fontes de informação.

Sendo a notícia um produto de primeira necessidade, para jornalistas e opinião pública, cabe aos primeiros a grande responsabilidade social de filtrar, seleccionar, pesquisar, confrontar, compreender, construir e difundir informação a partir de um vasto campo de acontecimentos. Desse campo, é notícia o que sai da normalidade: o insólito, o acidente, a ruptura, a crise, a urgência, a má solução, a demissão. Está convencionado. A dramatização mediática atrai. Pela positiva, quando ela é fundamentada em investigação jornalística própria, revelando os “podres” da sociedade, o leitor agradece. Acredita-se, desde o Watergate, que os jornalistas são uma espécie de purificadores da democracia. E são, quando o seu trabalho é sério, rigoroso, ao serviço da verdade. Ao serviço do cidadão.

Temos na Guarda um jornalismo local profissional. Um exemplo de vitalidade, empenhamento, persistência e resistência. Com provas dadas, com bons jornalistas. Que ajudaram a mudar a Guarda, a abalar “torres de marfim”, a abrir novos caminhos de reflexão e acção.

Então, no meio de tanta coisa boa, a minha pergunta é simples: O que leva um jornal a interpretar que uma organização, seja qual for, está a viver o princípio do fim?

Vem isto a propósito de uma frase, uma simples frase, publicada na última edição do “Terras da Beira”, na secção A garrida, (coluna híbrida entre a informação e a opinião), que diz o seguinte: «(…) Poderá ser o princípio do fim do mais destacado grupo de teatro do distrito da Guarda». Referiam-se ao “Aquilo”.

O jornal conduz-nos ao domínio da futurologia. Própria de adivinhos, em época de Ano Novo. Sendo opinião, ela vincula quem a escreveu. E quem a escreveu creio que é jornalista, com obrigações éticas, que desta forma constrói e difunde uma antevisão: a agonia, o fim.

É legítimo questionar: Quais os argumentos objectivos para tal interpretação especulativa? É que procurei em todo o jornal e não os encontrei. Não vi ninguém a assumir tal cenário. Pelo contrário, curiosamente, li em dois jornais (O Interior e Nova Guarda) que o “Aquilo” está vivo, com novas vontades, a caminho do futuro. Será o princípio do fim? Faço votos para que o jornal TB não ganhe a aposta.

Victor Amaral, docente na ESEG (cooperante do Aquilo), carta recebida por email

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