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O primado da necessidade

Bilhete Postal

Se estou bem, perguntaste e fiquei em silêncio elaborando uma resposta. Querias saber dos meus sentimentos ou das emoções que lhes dão raiz. Organizei uma resposta para te ser cordial e afável. Construí a ideia e ia responder-te quando percebi que não estavas mais. Demorei muito entre a pergunta coloquial e a palavra proferida. Olhei-te, percebeste que não falava e sorriste transpondo-me escancarado. Soubeste pela demora que não estava bem e saíste sem te expores aos queixumes possíveis, aos desabafos que te cansam. Amanhã quando cruzares comigo vais dar-me um olá fugido, ou atiras uma daquelas exclamações que saúdam sem refutação. A necessidade converteu muitos de nós: mais tristes, menos empenhados, menos altruístas, mais absentistas, desiludidos, desinteressados, em desesperança. Este processo que coloca a busca do meio – dinheiro – na primazia do estar, centra o viver em subtrações de dívida e soluções para financiar o quotidiano. Hoje o primado é da matéria. Hoje é o vazio ideológico, o vazio da vontade, o vazio da fé. O vil metal convertido na razão última da vida. Neste processo constrói-se um mundo de lamúrias sem muro. Elas andam à solta, elas libertam-se em turbilhão e dificultam as relações. Como demorei a responder sabes que apanhei a gripe do metal e por isso não te aproximarás tão cedo. Eu sei que sabes e sabendo que sabias, fiquei a saber que estava doente. Tu não sabes, mas já estou a tratar-me e logo perceberás.

Por: Diogo Cabrita

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