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“O povo tem sempre razão”?

Crónica Política

Vem esta questão a propósito da permanente responsabilização, o que se aceita, dos eleitos. De todos os eleitos mas com particular acuidade nos eleitos políticos.

E os eleitores? Também eles podem e devem ser responsabilizados?

O habitual, o chamado “politicamente correto”, é os políticos assumirem as responsabilidades exclusivas com o já tradicional e gasto “o povo tem sempre razão”.

Não sendo obrigatório, votar é, no entanto, um dos mais nobres direitos dos cidadãos. Com ele escolhem-se e elegem-se os cidadãos que irão, em determinado período, administrar a coisa pública. Seja elaborando as leis que orientam a vida das pessoas, seja concretizando realizações que abrangem os vários setores da sociedade.

Tarefas importantes que exigem muita responsabilidade. Mas se a responsabilidade dos eleitos é grande a dos eleitores não é menor.

Porém, uns e outros, em múltiplos casos, não têm atuado com muita. Falemos dos eleitores porque dos outros, os eleitos, quase todos os dias se fala.

Como age, normalmente, o eleitorado?

Uma franja significativa não de uma maneira muito “saudável”. Imperfeitos como homens e mulheres que somos, também enquanto eleitores somos muito imperfeitos. Como poderíamos classificar os eleitores?

Há desde logo “os fanáticos”. Votam no seu clube (partido) independentemente de ele estar a “jogar” bem ou mal. São muitos mas ainda assim uma franja minoritária do eleitorado.

Há os “pragmáticos”. Não têm filiação partidária e votam racionalmente naqueles que personificam, para si, as melhores propostas. Leem as propostas e avaliam o grau da sua exequibilidade. São uma minoria.

Há os “abstencionistas”, isto é, aqueles que se esquivam à política sob as mais variadas desculpas. Umas vezes dizendo não “gostar” de política. Outras proclamando não se tratar de coisa “séria” e de gente “séria”. Ou ainda argumentando que é uma perda de tempo. São muitos… mesmo muitos.

Há os “interesseiros”. Dizem mal dos partidos e dos políticos mas estão disponíveis para alguma benesse que deles venha. Participam ocasionalmente nos atos eleitorais e quando convidados para algum “combate político” manifestam, uns declaradamente outros dissimuladamente, a sua apetência para a “cunha e o favor”. São bastantes… muito mais do que possa parecer à primeira vista.

Há “os emotivos”. Votam porque gostam, muitas das vezes sem saber porquê, mais de uns do que de outros. Normalmente não conhecem as propostas, ou conhecem-nas muito pouco, mas “acham”, sem saber bem porquê, que “fulano” é melhor do que “beltrano”.

Há “os do contra”. Por norma bastante informados. São do contra mesmo que o contra seja contra o contra. Os que estão são maus e os que estão na oposição é que são bons. São bons até ser poder… a partir dai passam a ser maus. Como dizia um amigo meu há dias, ironizando a situação, «quem deve governar é quem perde as eleições e quem ganha deve ir para a oposição». São também muitos.

Há “os reincidentes”. Votaram convictamente de uma determinada maneira em determinado momento, como não gostaram da atuação dos eleitos no ato seguinte não votaram ou votaram noutra opção. Mas sem se saber bem porquê voltam a votar, às vezes com mais convicção, nos protagonistas em quem tinham votado anteriormente.

Claro que haverá muitos mais tipos de eleitores, alguns, por exemplo “os ressabiados”, até me escuso de falar. Até os há das tipologias faladas que se cruzam.

E eu pergunto: a culpa é só dos políticos? Não serão os políticos uma “montra” deste eleitorado? Não estará na hora de criticar e penalizar socialmente, como acontece com os eleitos, determinadas posturas do eleitorado e deixarmo-nos do politicamente correto “o povo tem sempre razão”? É que se a tivesse não haveria alternância.

Os eleitores devem assumir as suas responsabilidades e deixarem de transferir apenas para os eleitos a culpa pelo estado atual das coisas.

Porque eu não quero que o Hitler tenha razão: “A sorte dos governantes é que os homens não pensam”.

Por: Fernando Cabral

* Antigo presidente da Federação do PS da Guarda, ex-Governador Civil e deputado na Assembleia da República

Comentários dos nossos leitores
barreiros barreiros1938@gmail.com
Comentário:
mas que grandes verdades continue
 

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