Arquivo

O hospital dos animais selvagens

Na região já é possível apadrinhar uma águia ou um açor, entre outras espécies

Em 2007, quase duas centenas e meia de animais selvagens foram acolhidos no

Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens (CERVAS) de Gouveia. Uma equipa de verdadeiros “salva-vidas” tem-se empenhado na recuperação destes animais, muitos deles em risco de extinção e sujeitos a uma série de ameaças. De forma a angariar mais apoio para esta tarefa, o CERVAS criou, em Junho, uma campanha de apadrinhamento de animais selvagens que já rendeu 58 padrinhos e madrinhas, oriundos de todo o país e até de Espanha.

A ajuda destes mecenas do mundo animal traduz-se no apoio financeiro a cada “afilhado”, que pode variar entre os 15 e 20 euros ou ascender aos 50, caso se trate de uma empresa. Em troca, os “padrinhos” podem acompanhar a rotina dos animais nas instalações do CERVAS e assistir ao seu regresso à natureza, depois de concluída a sua recuperação. No entanto, a campanha prevê mais do que simplesmente angariar verbas. «Queremos envolver a população, sensibilizá-la para o nosso trabalho e para a realidade destas espécies», garante Ricardo Brandão. Porém, o veterinário do Centro acrescenta que o dinheiro disponível «nunca é suficiente, até porque o número de animais que aqui chegam não tem parado de aumentar». Só no ano transacto foram curados e libertados 47 animais. Um dos últimos a regressar ao seu habitat foi um mocho-galego, apadrinhado por Joana Galego, de Campo Maior, local onde a ave foi encontrada. Depois de ter sido tratado em Gouveia, a sua libertação aconteceu no início do Outono, com pompa e circunstância.

«Estiveram presentes muitas crianças de todas as escolas do concelho, membros da Academia Sénior e até o empresário Rui Nabeiro se associou ao momento», recorda a “madrinha”, mestranda em Biologia da Conservação e, talvez por isso, mais sensível para estas matérias: «Sei muito bem que estas actividades nunca conseguem grande financiamento e não hesitei em ajudar», adianta. A mesma razão levou Artur Fernandes, de Vila do Bispo (Algarve), a fazer-se padrinho de um abutre-preto, espécie emblemática do Norte do distrito da Guarda. «Esta é uma área que ainda está pouco desenvolvida em Portugal e com este acto simbólico posso ter dado um grande contributo para a vida destes animais», explica o estudante de Biologia. De resto, o número de apadrinhamentos tem vindo a aumentar e até há quem tenha aproveitado para surpreender neste Natal: «Há muita gente a oferecer “afilhados” a familiares e amigos», revela Ricardo Brandão. A campanha vai continuar em 2008 e «por tempo indeterminado». O objectivo, esse, manter-se-á: sensibilizar particulares e empresas para a necessidade de salvar os animais selvagens em perigo.

Surpresa negativa na região é a posse ilegal de animais

Os motivos que conduzem os animais ao CERVAS parecem não variar muito de espécie para espécie. No caso dos mamíferos carnívoros, a principal ameaça são os atropelamentos nocturnos. Quanto às aves de rapina, não raras vezes são electrocutadas quando pousam para descanso ou para observação do território em postes ou fios eléctricos. O abate ilegal é outro dos motivos, assim como o uso de venenos para o controlo de predadores. Mas «a surpresa negativa» na região, segundo o veterinário do CERVAS, é mesmo «a quantidade de animais ilegais que as pessoas têm em casa, sobretudo nas zonas rurais». As apreensões têm aumentado graças ao reforço da fiscalização do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR. «Quando se encontra um animal deste tipo deverá ser entregue às autoridades, que, posteriormente, o encaminharão para as entidades adequadas», apela o responsável.

Rosa Ramos

Sobre o autor

Leave a Reply