Arquivo

Nomes da Inquietação

Opinião – Ovo de Colombo

Na filmografia de Manoel de Oliveira, Inquietude (1998) sucede a Viagem ao Princípio do Mundo (1997), filme centrado num velho realizador de cinema chamado Manoel (Marcello Mastroianni), uma meditação pessoal sobre a idade avançada e o valor da memória, isto é, sobre a certeza da morte. A obra anterior delimitava o seu foco a partir de uma viagem em busca das raízes de Afonso (Jean-Yves Gautier), um actor francês vindo de uma família portuguesa. Sem perder a referência à realidade portuguesa em diferentes momentos históricos e localizações geográficas, Inquietude opta pela dispersão e desenvolve a reflexão da obra anterior noutra direcção.

Ao contrário de Viagem ao Princípio do Mundo, onde a morte acabava por ser vista com um certo apaziguamento, aqui ela surge sobretudo como inquietude. A morte aliás é apenas um dos nomes da inquietação que o filme desvenda. Os outros dois são o desejo e o medo. Pelo menos desde Acto da Primavera (1963) e A Caça (1964), que o cinema de Oliveira é uma arte que desassossega, que se debruça sobre o desassossego, como se essa fosse a consequência inevitável de se recusar a afastar do enleio intrincado do viver humano.

Em “Os Imortais” (de Prista Monteiro), um pai (José Pinto), grande matemático e escritor, tenta convencer o filho (Luís Miguel Cintra) a suicidar-se para alcançar a imortalidade. Em “Suzy” (de António Patrício), um dandy (Diogo Dória) no Porto dos anos 1930 apaixona-se por Suzy (Leonor Silveira), uma caprichosa prostituta. Em “A Mãe de um Rio” (de Agustina Bessa-Luís), uma mulher de dedos de ouro vive numa montanha e é temida pelo povo da aldeia de Alvite. Três contos reunidos num filme inquieto e inquietante.

Este filme-súmula passa em revista grande parte da obra de Manoel de Oliveira, mas consegue fazê-lo da forma mais arriscada. A hipótese é esta: Inquietude como imagem retocada a obra do autor. Não há fusão entre as estórias, mas antes adição, o que numa filmografia tão heterogénea é coerente. O sentido é o da autonomia formal de cada segmento — sublinhada de forma lúdica, por exemplo, através do aparecimento de um jardim no primeiro conto que não poderia existir no palco teatral que faz a ligação com o segundo conto. A relação é temática. A inquietude é uma força que dirige a vida. Talvez por isso o próprio realizador, com os seus 90 anos, se mostre a dançar. Os ecos que surgem de outros filmes são assim novas equações: a planificação geométrica dentro da noção de quadro, a colagem como processo cinematográfico, a mobilidade na dialéctica entre palavra, imagem, e acção. Quem celebra a inquietude, exalta a vida.

Sérgio Dias Branco*

* Coordenador de Estudos Fílmicos e da Imagem (Mestrado em Estudos Artísticos) na Universidade de Coimbra

**O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Leave a Reply