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No murmulho do Atlântico (imaginando)

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Ouço a tua voz que não cala e chega à praia. Vejo que se entretêm as ondas num carrocel de crianças atrevidas. Vejo e ouço os assobios do vento ou um pai que educa. Murmulha o mar e silva o tempo. Por entre as águas turvas e a espuma branca chega roupa e, às vezes, gente. Mortos. São muitos mortos esta madrugada que arrasta o mar. Não há flores, nem homenagens, nem barcos ou pedaços de navios. A água entrega na areia os corpos sem vida que chegam em ondas. Parecem noivas. Todos de véus brancos engalanados. Nenhum se levanta. Nenhum fala.

– Esta madrugada chegaram às praias do Algarve os corpos de 150 pessoas que se pensa serem náufragos de balsas de fugir do norte de África. Uma tragédia que envolve mães, crianças, grávidas e homens jovens. O que se tem passado em Melilla e sul de Itália não era imprevisível em Portugal mas a situação cai no nosso colo de modo dramático e com a força de dezenas de cadáveres. As imagens que passamos de seguida podem chocar algumas pessoas. Fernando Neves, RTP Faro.

Eu pensava que chocaria todos, mas afinal só se prevê alguns. São “cayucos” ou “pateras” que partem de Marrocos, Argélia, Senegal e Mauritânia e vêm carregados de sonhos de jovens. O peso que os afunda é a ganância de alguns e a coragem de partirem naquelas barcas é esperança. Murmulha a Esperança ondulando na praia. Morta sucumbe na areia com a mão na mão da mãe, morta também.

Por: Diogo Cabrita

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