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Luto

Agora, há um antes e um depois daquele dia. Mas, quando menos espera ou prevê, o tempo deixa de ser linear e torna-se circular. De repente, tudo regressa àquele momento, àquele corpo, àquele rosto parado. Talvez por isso, poucos dias após aquele dia, ele foi reler uma passagem de “Em Busca do Tempo Perdido”: aquela em que, contando a morte da avó, Marcel narra verdadeiramente a morte da mãe de Proust. Diz como o seu rosto rejuvenesceu na hora em que a vida se ausentou dele. Dessas palavras tão frias como a morte que descrevem, ele fixa uma frase, a partir da qual começa a mudar a rota da sua dor: “A vida, ao retirar-se, acabava de levar as desilusões da vida. Parecia haver um sorriso poisado nos lábios da minha avó. Naquele leito fúnebre, a morte, como o escultor da Idade Média, deitara-a com a aparência de uma menina.” Depois de assim ter lido, regressa ao momento em que chegou ao hospital e lhe deram a notícia. E volta a ver a mãe inclinada para o lado direito (parecia que dormia) e o seu rosto apagado pela morte. Mas não estava mais jovem do que fora, porque antes não envelhecera muito. Nem as rugas lhe desapareceram, porque nunca as tivera. Talvez por isso, ele pensara sempre que a mãe era eterna.

Agora, todos os dias olha as fotografias. Tenta adivinhar as situações em que foram tiradas, procura despertar o instante ali fixado. Vê-a, ainda muito jovem, ao lado das amigas, numa praia, com os fatos-de-banho daquele tempo coberto. Noutra, está a passear, numa tarde em que a luz não consegue fugir dos olhos dela e do namorado. A seguir, demora-se a olhar as imagens do casamento – sabe que aquelas luvas brancas estão guardadas há 55 anos numa gaveta. E ouve a voz do pai a chamar: “Luísa!” Nesta fotografia, mal se reconhece: é um bebé de poucos meses, a olhar para ela, e ela a olhar para ele – e os tempos da vida estão ali todos contidos. Há uma em que está de mão dada com a irmã, entre os pais. Outras, não consegue afastá-las do olhar, assim quisesse agarrar o que lhe foge. E ouve a voz da mãe a dizer: “Fico sempre mal nas fotografias. Não gosto nada de me ver!” Finalmente, vê a sua última imagem, sentada no sofá onde costumava estar. Depois de a ver, dirige-se, sem pensar nisso, ao sofá e senta-se no braço, como quando lhe fazia festas. Agora, em vez dela, há ali a partida, o vazio, a ausência – e nos seus olhos surge um brilho triste e húmido.

Este luto tão terrível atirou-o contra si mesmo. Para ganhar alguma distância, pensa-se como se fosse outro (“Je est un autre”), um terceiro – ‘ele’ em vez de ‘eu’. Relê, agora com proximidade, “Luto e Melancolia”, o grande texto de Freud que um dia tinha lido com afastamento. Relê-o e parece que está à beira de um buraco. Depois, repara que, no monte de livros que tem para ler, está o “Journal de Deuil”. Esse Diário permaneceu inédito durante anos e apenas foi publicado recentemente. Roland Barthes começou a escrevê-lo no dia seguinte ao da morte da mãe e foi arrastado por ela durante anos. Há poucos livros tão claustrofóbicos como este, tão insuportáveis, tão funestos. Somos cercados por um amor fechado, por uma dor que não desiste, que não tem intervalo, que não se solta. Ali há um veneno agudo, um desgosto que morde como um cão cruel.

Ele cola a sua dor à dor de Barthes e atravessa pela mão dele os longos dias do luto. Lê o Diário: primeiro, rapidamente; depois, lentamente, confirmando o que sentiu e pressentindo o que sentirá. Lê o Diário, assim como aquele a quem foi diagnosticada uma doença grave passa a ler tudo o que sobre essa doença consegue encontrar. Lê o Diário e fica suspenso daquela inteligência que quer analisar os signos da sua dor e os sintomas dos seus sentimentos. É subjugado por aquela vontade que insiste e prossegue mas que, às vezes, se desorienta, tal a borboleta que voa para a luz e fica cega, desnorteada, desmedida. Lê no Diário: “Sei agora que o meu luto será caótico.” Prossegue: “Dia horrível. Cada vez mais infeliz. Choro.” Continua: “A emoção passa, a tristeza fica.” Lê mais: “Não dizer Luto. É psicanalítico de mais. Eu não estou de luto. Estou triste.” Mas nos dias seguintes volta a falar de luto: “Luto: mal-estar, situação sem chantagem possível”. Acorda a meio da noite para ler: “Eu não tenho desejo, mas necessidade de solidão.” Lê mais: “Solidão – não ter ninguém em casa a quem poder dizer: Eu volto a tal hora…” Agora, fecha o livro, olha o vazio e regressa de novo, obsessivamente, àquele momento, àquele corpo, àquele rosto parado. Adormece. Pela primeira vez, depois da morte dela, sonha com a mãe.

Por: José Manuel dos Santos

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