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Limpar não é obsessão

Bilhete Postal

O quotidiano do trabalho, ou de casa, a partilha diária em turnos, em equipas, com a família, cimenta uma intimidade por vezes difícil de ser lida no texto básico da moral ou no compêndio de regras que Damásio sugere que está lá mesmo se a educação fosse mínima. Há comportamentos que se tornam sólidos na faculdade partilhando casas, ingressando em repúblicas. O que tem o quotidiano de complexo é o gesto que não se faz, o trabalho que se deixa para o outro. Há quem pense que a água fresca chega ao frigorífico sem ajuda, há quem julgue que os pratos se lavam por magia, há quem nunca tenha percebido que a sanita é branca porque a limpam, e há mesmo quem tenha a ilusão de que a roupa trepa do chão para os cabides. Muitos descobrem tarde que os interruptores não se desligam, que a cama não tem braços e não se alinda, que a mesa foi posta por alguém. Estas pessoas para quem os outros facilitam a vida calando a revolta de nunca os ver participar na construção, ficam pasmadas quando os correm de casa, quando os escravos protestam, quando os amigos se fartam. Mas isto é assim para os que arrumam o carro em segunda fila com lugares à frente, tapam as saídas de garagens, bloqueiam ruas inteiras para irem “depressa” ao multibanco. Eu acho que estes aristocratas, estes resquícios da nobreza não são só distraídos, nem desmazelados, nem mal-educados, são sobretudo os príncipes do quotidiano. Desafortunadamente, eu nasci com a necessidade de arrumar, de limpar o que sujo e vítima da escravatura de alguns filhos, de alguns amigos e por vezes de colegas e companheiros de luta. Os príncipes deviam perceber porque há dias em que nos revoltamos.

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