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Lamento do Homem Comum

António:

Depois de madura reflexão e atenta análise das estatísticas, conclui ser eu o português médio, comum. Em França chamar-me-iam Monsieur Tout le Monde, na América Joe Doe e na Alemanha algo de impronunciável mas com o mesmo sentido. Aqui, como diria o Durão Barroso, sou o Zé.

Ganho menos de mil euros por mês, moro num T3 da Reboleira, devidamente hipotecado, ando a pagar também as prestações do carro (e as do home cinema, do computador, da enciclopédia, do cartão de crédito e das férias do ano passado), tenho apenas um filho (concluímos que o nosso orçamento não suportaria as despesas do segundo) e sou sócio do Benfica. No meu percurso normal diário não há nenhuma SCUT, não recebo subsídios de lado nenhum e vou pagando os meus impostos, que nem tenho muito por onde fugir.

A empresa onde trabalho está numa situação económica difícil, até porque o meu patrão trabalha sobretudo para o Estado e o Estado, como sabes, paga sempre tarde. Queixa-se ele ainda de que muitos dos concursos que ganha implicam o pagamento de comissões tais que a sua margem de lucro fica reduzida a muito pouco. E esse muito pouco, queixa-se ele ainda, é depois engolido pelos juros que paga ao banco pelos empréstimos que vai contraindo para se poder aguentar enquanto o Estado não paga. Fala-nos ainda dos chineses, do preço do gasóleo, do aumento do IVA – tudo para justificar o facto de não nos poder pagar horas extraordinárias e de nos dever ainda o subsídio de Natal do ano passado.

É claro que as coisas são ainda mais complicadas. Não percebo, por exemplo, como hei-de conjugar a má situação económica da empresa do meu patrão com a sua evidente prosperidade pessoal, do Mercedes novo à vivenda construída no Algarve à beira da praia, graças aos favores de um autarca seu amigo.

Mas não penses que as coisas estão tão complicadas como isso. Por enquanto as coisas vão dando para aguentar, embora mais mal que bem. No fim-de-semana vamos ao centro comercial, ou ao hipermercado – não à praia, que a minha mulher tem medo dos pretos – às vezes ao cinema, de vez em quanto a um restaurante. A não ser que o cartão de crédito esteja sem saldo e então ficamos em casa. Ou arriscamos ir à praia.

Como vês, tenho uma vida difícil. Ou, no mínimo, complicada. Penso até que é quase tão stressante como a dos funcionários públicos, embora talvez não tanto como a dos professores. É por isso que te pergunto se achas razoável que eu inicie um movimento para que nós, os cidadãos comuns, comecemos a exigir a reforma aos 63 anos de idade.

Um abraço

Por: António Ferreira

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