Arquivo

Insolvências de pessoas dispararam na região

Número de falências duplicou no primeiro semestre deste ano face a igual período de 2011, mas quase triplicaram no caso de particulares e famílias

Entre janeiro e junho, registaram-se no distrito da Guarda e na região da Cova da Beira 157 falências judiciais, quase o dobro das 79 verificadas em igual período do ano passado, e o triplo comparativamente a 2010. Os dados são do Instituto do Informador Comercial, entidade gestora de crédito que reúne esta informação com base nos anúncios publicados em “Diário da República”, e mostram que para esta subida contribuíram tanto as falências de pessoas singulares como de pessoas coletivas.

As falências individuais são, de resto, as que registam um aumento mais significativo, com o número a disparar em 176 pontos percentuais. Só no primeiro semestre deste ano houve 102 famílias a declarar falência na região, quase o triplo dos casos registados em igual período do ano passado (37 processos), e mais 300 por cento comparativamente a 2010 (25 processos). No distrito da Guarda, os casos de famílias insolventes aumentaram de dez, no ano passado, para 34 este ano, ou seja, mais 140 por cento. Mais uma vez, as maiores variações verificam-se nos concelhos da Guarda, que passou de cinco para dez casos, e de Seia, que de um caso em 2011 evoluiu para nove este ano. Nos municípios da Cova da Beira, o número de falências individuais aumentou em 151 por cento em termos homólogos (de 27 para 68 casos), e mais do que quintuplicou comparativamente a 2010 (ano em que houve apenas 13 processos entre janeiro e junho). O concelho da Covilhã é o que tem maior peso nesta estatística, com 57 processos de falências individuais, mais 34 que no ano passado e mais 46 que há dois anos.

Já no que diz respeito às insolvências de empresas, foram registados 55 processos, mais 30 por cento que no primeiro semestre do ano passado. No caso particular do distrito da Guarda, o número de insolvências de pessoas coletivas subiu 146 por cento face a 2011, o segundo maior aumento a nível nacional, só superado pelos 214 por cento do distrito de Beja. Desde janeiro, já fecharam portas 37 empresas, quando em igual período de 2011 foram apenas 15. Os casos mais graves acontecem nos concelhos da Guarda, que passou de seis empresas insolventes em 2011 para 14 este ano (mais 133 por cento), e de Seia, onde o número mais do que triplicou, com 10 empresas falidas este ano, e apenas três no ano passado. Por outro lado, os concelhos de Vila Nova de Foz Côa e Sabugal registaram uma diminuição (uma falência no ano passado, nenhuma este ano). Na Cova da Beira, pelo contrário, o número de insolvências coletivas decresceu. Depois de, entre 2010 e 2011, as falências quase terem duplicado (passaram de 15 para 27), verificou-se neste ano um decréscimo na ordem dos 33 por cento (18 empresas insolventes). O cenário de descida é comum aos concelhos de Belmonte, Fundão e Covilhã, tendo a maior diminuição sido registada neste último, com 12 falências coletivas no primeiro semestre, contra as 17 do mesmo período de 2011.

Os setores com maior aumento de falências foram as atividades e promoção imobiliárias e construção de edifícios, e o comércio por grosso e a retalho, exceto de veículos automóveis e motociclos, com 13 e 16 casos, respetivamente, num total de 55 falências registadas na região. Estes números seguem a realidade nacional, sendo que, de acordo com os números do IIC, a subida no número de insolvências no país entre janeiro e junho foi de 83 por cento. No total, foram quase dez mil processos, o que se traduz numa média de 53 falências por dia. As insolvências de pessoas individuais representam 65 por cento desse “bolo”, com mais de seis mil casos (34 por dia), o dobro dos registados no primeiro semestre de 2011. Quanto às empresas, os dados mostram que, nos primeiros seis meses deste ano, o número de falências aumentou em 57 por cento.

Pires Manso «preocupado» com escalada do número de falências

José Pires Manso, responsável pelo Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social (ODES), olha com «apreensão» para as estatísticas que dão conta do aumento do número de falências na região. «Estes números não são novidade para ninguém. As falências têm vindo a crescer em todo o país e a região não iria fugir a esta realidade», refere o catedrático da UBI, para quem estes dados são «preocupantes, pois mostram que as poucas empresas que ainda existem no interior estão a desaparecer a um ritmo acentuado». Pires Manso salienta que algumas destas falências, «concretamente as de pessoas singulares, poderão estar ligadas a outras maiores, como o encerramento da Delphi na Guarda em 2010», que foi «um rombo muito grande na economia local». O docente lembra que «se uma pessoa adquire, por exemplo, uma casa, e depois fica desempregada e perde a fonte de rendimento, fica numa situação de dívida que pode mesmo resultar numa declaração de falência».

Este aumento das falências de pessoas individuais «resulta sobretudo da subida do desemprego», mas também de «um cada vez maior conhecimento que as pessoas têm deste mecanismo, que permite em muitos casos um perdão da dívida junto dos credores», afirma Pires Manso. Já as falências coletivas encontram a causa nas «dificuldades económicas das empresas, cada vez com mais encargos e menos receitas», mas também resultam da «dupla discriminação a que foi sujeito o interior com o fim das SCUT», denuncia o professor de Economia. «A primeira discriminação surge com as portagens em si, que afastam as pessoas como se tem visto pelos dados do tráfego, e a segunda decorre do facto de essas portagens serem as mais caras do país», refere Pires Manso.

O responsável pelo ODES mostra-se, por isso, «muito pessimista», e diz não antever «nada de bom para o futuro da região». Pires Manso reclama «descriminações positivas para o interior, para estimular as empresas a instalarem-se cá e assim fomentar o emprego», e aponta a «falta de medidas governamentais para relançar a economia a nível regional e nacional». O responsável reconhece, no entanto, que «enquanto não nos livrarmos das teias que a troika nos impôs, nada deverá ser feito nesse sentido».

Fábio Gomes Falências de empresas no distrito da Guarda aumentaram 146 por cento, a segunda maior subida do país

Insolvências de pessoas dispararam na região

Sobre o autor

Leave a Reply