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Fazer mais com comboios

Em 1994-95 tive a oportunidade de conhecer os engenheiros responsáveis pela reconstrução da Linha da Beira Alta, então em curso. Acostumado como estava às estreitas linhas férreas da África Austral, fiquei estonteado pelo conforto e estabilidade proporcionada por esta bitola larga. Desde então, sempre que posso, escolho o comboio, e acho que a qualidade do serviço mantido em Portugal continua a ser de um nível alto.

Portugal tem a topografia perfeita para a exploração das linhas férreas, utilitárias ou turísticas. A faixa costeira entre Setúbal e Braga, onde mora a maioria da população, nunca apresentou dificuldades para construir linhas para passageiros ou carga. Em paralelo, temos um interior montanhoso de grande interesse, já penetrado pelos infatigáveis visionários do século XIX, que encontraram na complexa geologia e ao longo dos rios, rotas para as linhas dos seus sonhos. Temos o Tejo até Ródão; e depois o troço dramático entre a Covilhã e a Guarda; a beleza da linha da Guarda a Coimbra, que segue o Mondego, as linhas do rios Douro e Tua, o Vale de Vouga. Nas cidades há bons serviços, e alguns com rotas formosas: a de Lisboa a Cascais; a passagem por comboio pela a Ponte 25 de Abril (uma experiência!) ou a entrada na cidade do Porto pela Ponte de Dom Luís.

O nosso futuro vai ser inevitavelmente muito mais ligado aos transportes públicos do que no passado, e ao comboio em particular. Parte dos 5,1 mil milhões euros da UE para 2007-2013 dá prioridade aos «modos de transporte não poluentes, tais como vias navegáveis interiores e transporte ferroviário». Grande parte do investimento tem sido feito, até agora, em velocidade. Começaram há muito, com a electrificação da rede, como na Linha do Norte, e actualmente na Linha de Beira Baixa. O passo final para a velocidade será, claro, a chegada do TGV. O que falta? Acho que é a sensibilização do público à oferta já disponível, e ainda mais inovação. A CP já parece ciente das oportunidades para serviços especiais. Tivemos as excursões de Março para ver as amendoeiras e, a 30 de Maio, começa outra vez o comboio de vapor na Linha do Douro, a circular todos os sábados até 3 de Outubro entre a Régua e Tua. Há “comboios de aventura” com programas para jovens; pode-se alugar uma carruagem especial, inclusive VIP, ou uma automotora VIP.

Mas se queremos um serviço sustentável, tudo isso deve ser muito mais visível. A CP merece uma boa resposta do público, mas não acontecerá sem incessante publicidade, artigos, promoções, televisão e informação sobre a rede, a oferta e as novidades. Também são necessárias inovações: mais facilidades para estacionamento seguro (até ao dia seguinte) nas estações, e não só nas grandes cidades. Os horários devem ser visíveis em toda a parte, nos jornais, nos lugares públicos ou nos postos de turismo. E devemos fazer mais agora com o que temos à mão. Ideias usadas pelo mundo fora não faltam.

Nos Intercidades, uma carruagem é actualmente partilhada entre a primeira classe e o bar. Se fosse reconfigurada, deixando o comboio “monoclasse”, podia oferecer uma carruagem inteira para bar e restaurante, que também podia ser arrendada para funções particulares: casamentos e festas; ou para empresas e conferências, serviço para o qual a CP já tem facilidades.

Nos anos 50 do século passado, os americanos tinham os “Midnight Special” – comboios de jazz. As carruagens polivalentes tinham palcos e bares; e ofereciam-se horas de entretenimento até à chegada de madrugada. Os nossos Regionais, com menos passageiros, têm espaço para carruagens especiais, e com os horários menos ocupados no interior, podiam aproveitar as horas certas para passar as melhores vistas. A ideia é levar o máximo de tempo para chegar, e não o mínimo, parando para fazer fotografias.

Algumas carruagens dos comboios americanos da década de 50 tinham secções elevadas construídas em vidro, as “Vista Dome” – com vistas de 360 graus. Os muitos túneis em Portugal limitam a altura de alguns comboios, mas acho que a hora chegou de experimentar novas carruagens e fazer mais com as janelas e as vistas. Uma ou duas novas carruagens em cada Intercidades não custaria uma fortuna.

Até a Cidade do Cabo, com os seus comboios tão fracos, lançou o “Biggsy”, uma carruagem inteira transformada num “snack-bar”, acoplado em vários comboios suburbanos diariamente e (com preços normais) muito cheio do princípio ao fim do dia. Se fosse na Linha de Cascais, não faltariam clientes…

Por: Rory Birkby

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