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Disc Jockey

observatório de ornitorrincos

O que é afinal um disc jockey (ou di-djei)? Sempre achei curiosa uma actividade cujo composto substantivante modificasse o sentido simples da sua descrição. Explico a frase anterior, que de tão confusa nem eu a compreendo. (Deixo-a no entanto ficar, para possibilidades interpretativas póstumas, que nunca se sabe se um dia não haverá quem afinal se interesse pelo conjunto da minha, digamos, obra.) Vejamos. Um jockey é um rapaz pequenote e encurvado que conduz cavalos de corrida. Um disc jockey é alguém que põe discos a tocar. Compreendem a relação? É como a semelhança entre a Maya e a Abelha Maia.

O interesse em abraçar esta actividade laboral é directamente proporcional ao gosto por abraçar adolescentes que pululam as pistas de dança. Afinal “pôr música” não é mais que um substituto pobre de “tocar numa banda”, garante conhecido de engates pueris. Quem não sabe compor, cantar ou tocar instrumentos, aprende a colocar discos nos pratos e nos leitores de CD. Não pensem no entanto os pretendentes à função que esta não tem nenhuma arte ou saber. Não misturar estilos (Marante com Maroon 5), ter atenção às aberturas e finais das músicas em sequência e verificar se as adolescentes se mantêm em estado de euforia constante são algumas das preocupações de um disc jockey competente. Note-se que, muito embora possam ser de outra índole, os DJ’s incompetentes também terão as suas legítimas preocupações. Sinto-me obrigado a acrescentar esta informação para que os leitores não julguem que desprezo os profissionais que não sabem exercer o di-djeísmo de forma correcta. Na realidade nada tenho contra eles a não ser estarem a escolher música em lugares coincidentes. Há disc jockeys tão fracos e que sabem tão pouco de música que são conhecidos no meio (ou irão passar a ser, após este texto) como disc jokers.

Descrevemos até aqui, obviamente, os DJ’s que trabalham em espaços de diversão nocturna, ou como se chamam no Porto, “armazéns de abate”.

Há um outro tipo de DJ, mais conhecido por animador de rádio. Para exercer a profissão neste âmbito há duas qualificações exigidas, consoante o horário de trabalho preferido. Para os madrugadores, os que anseiam animar programas da manhã, é importante julgar-se ter muita graça (não é preciso ter realmente, basta estar convencido disso). Para os noctívagos, os que preferem fazer companhia aos ouvintes pela noite dentro, é desejável ter voz rouca e/ou melosa. Em ambas, o conhecimento musical é relativamente desnecessário, já que as playlists são elaboradas de acordo com as necessidades das editoras e a legislação do Ministério da Cultura.

Devemos considerar também, dentro do âmbito desta categoria laboral, o lugar de animador de karaoke, uma versão de DJ de discoteca, mas com pior voz, excepto quando a música escolhida é dos Pólo Norte. Neste caso, a contribuição desafinada do animador melhora substancialmente a canção original.

A última posição – neste artigo e na escala de prestígio – dentro desta fascinante profissão é o lugar de animador musical de centros comerciais e hipermercados. Seleccionar música para quem anda a cirandar em compras pode ser tão deprimente quanto as canções escolhidas para nos fazer companhia.

(Este texto foi escrito num centro comercial e musicalmente acompanhado pela selecção do DJ de serviço: Paulo Gonzo, Sting, Mariah Carrey e outros que tais. Compreende agora, caro leitor, o sentido do último parágrafo?)

Por: Nuno Amaral Jerónimo

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