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Crónica urgente e simplista*

A propósito da crónica de António Ferreira

” …um sistema de avaliação de desempenho, mesmo que seja mau, é muito melhor que não ter nenhum”. Espantosa a sua frase, de encher o olho! Sério? (…) Sabe, o trabalho dos professores, decorrente das suas especificações/funções/atribuições, não é mensurável ao nível do grau de funcionamento/eficiência/eficácia da Administração Pública em geral. São inúmeras as variáveis que condicionam o acto educativo: (in)sucesso educativo dos alunos e o (des)encanto dos professores. Aprende-se em Educação Comparada que qualquer intervenção em matéria de Educação, do nível mais micro ao nível mais macro, é condicionada pelo “SPEC”- vertente Social, Politica, Económica e Cultural. Aplicar o SIADAP à Educação é um erro crasso de política avulsa e o Ministério já tinha assumido, formal e correctamente em anos anteriores não o aplicar à função docente. Qualquer professor empenhado e competente, como me considero, quer ser avaliado, mas não desta maneira hipócrita, parcial e politizada – a ministra disse textualmente esta noite – “A Avaliação é um instrumento de gestão para as escolas” – só isto? E está a falar-lhe um professor com discentes entre os 10 -13 anos que sempre procura pôr-se em causa: se as dificuldades de aprendizagem dos alunos estiveram nele ou nas metodologias por ele utilizadas, ou …. A questão é muito mais vasta e ampliável do que o que a sua crónica, porventura urgente e simplista, quer fazer crer.

Fernando Costa, professor

* título da responsabilidade da redacção

Caro Sr. Professor:

Se bem o entendo gostaria de ser avaliado, mas não com recurso a critérios de “funcionamento/eficiência/eficácia”, que acha pertinentes apenas ao geral da administração pública. Se bem o entendo ainda, as “inúmeras variáveis que condicionam o acto educativo” resumem-se a duas (ou quatro): o “(in)sucesso educativo dos alunos e o (des)encanto dos professores”. Significa isto, as palavras são o que são, que qualquer profissional que veja o seu sucesso depender da sua eficácia perante terceiros e esteja desencantado se pode recusar a ser avaliado. Podemos então excluir da necessidade de avaliação, para além dos professores, os médicos (pelo menos os “desencantados”) e todos os funcionários de todas as repartições públicas deste desgraçado (e desencantado) país? Quanto ao SIADAP, recordo-lhe que um dos seus principais méritos é a sua adaptabilidade às circunstâncias concretas de cada serviço e cada carreira profissional e devíamos por isso estar a discutir, na versão proposta aos professores, os detalhes em concreto em lugar de uma recusa cega e em bloco (que dá ideia de que não querem é avaliação nenhuma). Tem graça a sua afirmação de que prefere não ler cronista nenhum a ter de ler este. Tem mais sorte do que eu e os outros pais deste país: é que enquanto V. pode evitar ler-me e só me lê se quiser, eu, se os meus filhos forem alunos na sua escola, não posso evitar que seja professor deles (ou pretender que o seja), quer V. seja bom, mau ou assim-assim, e, pior, para saber das suas qualidades como professor, vou ter de acreditar na sua palavra ou nos resultados escolares dos meus filhos. Mas esta última não vale, pois não?

António Ferreira

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