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Carta ao Pai Natal

observatório de ornitorrincos

Caríssimo,

Bem sei que provavelmente és um ser imaginário como os duendes, bons treinadores do Sporting ou as mulheres com quem Elton John já dormiu. Mas o facto de não existir nunca impediu Jorge Sampaio de escrever livros. Não vejo portanto razão para não receberes esta minha carta.

Gostava de te dizer que todos os anos tu és parte fundamental da minha decoração festiva, pois a Coca-Cola tem o bom gosto de te estampar nos rótulos das garrafas que eu colo na porta de casa, no que me parece uma boa simbiose simbólica entre o espírito de Natal cristão e o verdadeiro, empresarial e financeiro. Nota que não critico o carácter empresarial desta época natalícia, não sou apoiante da candidatura de Francisco Louçã nem deputado do Bloco de Esquerda. Pelo contrário, acho que é um bom exemplo da capacidade empreendedora do Ocidente, tal como a industrialização e os iogurtes com bifidus activo.

Os brinquedos desempenham actualmente um papel importante no desenvolvimento cognitivo das crianças, pois muitos são bonecos semi-inteligentes. E há também alguns brinquedos que são já bastante avançados, como bonecos que perguntam “Como te chamas?”, ordenam “Muda-me a fralda” ou pedem “Importas-te de tirar o CD do Rui Veloso?”. Quando pretendo ler ou escrever em casa da minha irmã, tenho alguma dificuldade em concentrar-me. Não por causa da minha sobrinha, sempre mais preocupada em descobrir novas utilidades para as batatas ou localizações criativas para a pasta de dentes, mas por causa dos bonecos espalhados pela casa, sempre a meter conversa.

Por tudo isso, Pai Natal, reconheço-te uma função social válida, tanto mais difícil pelo facto já referido de não existires. Nesse particular, por exemplo, desempenhas melhor tarefa que alguns ministros deste governo, também seres quiméricos, mas sem nenhum papel social relevante. Mesmo agnóstico, percebo a importância do Natal. Sigo o costume de enviar Boas Festas às pessoas que conheço, e por vezes também a algumas raparigas e mulheres, o que enobrece sempre uma pessoa neste mundo solitário. As pessoas com quem lidamos no dia a dia merecem de nós um pequeno gesto de humanidade e afecto. Só para te dar um exemplo, ainda hoje enviei vários e-mails a moças que têm fotografias em sites da internet por onde passo desinteressadamente. No fundo, é gente com quem passamos grande parte do nosso tempo e a quem muitas vezes não damos o devido valor. Embora eu reconheça o valor das raparigas, entendo que nesta altura não é excessivo demonstrá-lo.

Mesmo que não existas, como o reino do Cabindongo ou a necessidade real de construir outra linha comboio entre Lisboa e Porto, é bom que apareças nos livros, na televisão e nos centros comerciais. Faz as crianças sonharem com o desconhecido, muito embora o Pai Natal de alguns shoppings me pareçam mais interessados em fazer as mães e as irmãs mais velhas dos petizes viajarem por mundos imaginários descritos não nos contos de Charles Dickens mas nos filmes de Zalman King, como Orquídea Selvagem ou Delta de Vénus.

Feliz Natal, boas Festas e feliz Ano Novo. Nem era necessário dizer isto, porque tu vives descansado numa casa da Lapónia, forjada por lendas imemoriais. Quem precisa de tudo isso e mais que venha somos nós, que vivemos em Portugal, um país que se existisse não precisava de ser inventado.

Um abraço.

Por: Nuno Amaral Jerónimo

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