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Barão rompante

Theatrum mundi

Mais do que a disputa pelo poder no interior do CDS, o que Paulo Portas veio anunciar, no início de Março, foi a disputa pelo poder no espaço político à direita do PS. Passados dois anos do descalabro eleitoral em que deixou de ser ministro da Defesa Nacional, Paulo Portas tem pressa e dá por adquirido o regresso à liderança do CDS. Quando há dois anos se demitiu por não ter alcançado a fasquia dos 10 por cento, sabia bem que ninguém no seu partido lho cobraria politicamente. A inépcia de Santana Lopes fora suficiente para garantir o naufrágio e eximir o sócio governativo das culpas sempre partilhadas no cartório. Portas sabia, porém, que estava na altura de recuar, e recuperar de sete anos de exposição, para poder avançar um pouco mais tarde. Agora. Não poderia mesmo encontrar melhor conjuntura para um recuo estratégico. Há quem chame a isto interregno, travessia no deserto, período de nojo; para Portas, porém, foi a preparação do que havia de vir, o repensar dos pressupostos que legitimam a pública exposição e a entrega a um projecto, o talhar do próprio projecto. Para um político como Paulo Portas, os reveses transformam-se em oportunidades. Dois anos após a experiência santanista, o espaço político à direita do PS continua em frangalhos e Portas sabe que essa é a nova grande oportunidade, o pretexto, para a sua intervenção. Durante dois anos, esperou a conjugação dos factores que entende poderem fazer dele uma espécie de ‘desejado’ do campo não socialista. Em dois anos, viu o estado de graça de Sócrates tornar-se, contra todas as probabilidades, numa coisa perene e soporífera; viu a vitória de Cavaco transformar-se em instrumento de legitimação das opções políticas de Sócrates (coisa que, de resto, não aconteceria com Mário Soares em Belém); testemunhou, enfim, a fatal irrelevância política de Marques Mendes e de Ribeiro e Castro, agravada com o debate do referendo. No entretanto, Portas cuidou de preservar a memória da sua pose de estado e, sobretudo, de sócio confiável nos negócios do poder. Esse é o seu mais estimado património político no momento do regresso, que enfatiza à saciedade ao mesmo tempo que vai sugerindo, sempre por meias palavras, a inconsistência e a irresponsabilidade de Barroso e Santana na condução dos governos de coligação. Ora, no momento do regresso, Paulo Portas tem um projecto renovado. Sem rei nem roque, o espaço político à direita do PS está à mercê do homem providencial que Portas está convencido poder ser. “Quero construir um grande partido de centro-direita”, assegurou na entrevista do dia 2 a Judite de Sousa, “mostrar que também há homens decididos à direita do PS”. Mas como no centro-direita não pode haver dois grandes partidos (só um grande e um pequeno ou, quando muito, dois médios), o projecto de Portas é a própria reconstrução do campo não socialista; ou melhor, daquilo que fica para lá – para a direita – da influência do PS. Mais o centro. O projecto de Portas já foi a direita, a direita sem mais, sem centro, a direita patrioteira, a pequeno-agrária e a terratenente. E a que se proclama dos valores. Agora, quer disputar o centro, esse vasto espaço de indecisos, de vacilantes, sem ataduras nem embaraços ideológicas, nem valores bem definidos que impeçam a aproximação ao seu novo grande projecto capaz de entender, agora sim, os anseios da sociedade. A sociedade mudou; Portas entendeu. No deserto de ideias que hoje é o centro-direita em Portugal, eis que o barão rompante abre os braços a essa imensa mole de deserdados e proclama a novíssima ideia: “vinde e segui-me”.

Por: Marcos Farias Ferreira

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