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As três irmãs

Eram três irmãs, como as de Tchekov. A vida passava entre elas sem lhes tocar. O seu dia-a-dia era como um som contínuo, sem altos nem baixos. Para cada minuto havia um gesto lento, para cada hora um trabalho longo. Lavar, arrumar, pôr as mesas, cozinhar, servir, levantar, lavar. Moravam numa casa minúscula por cima do pequeno restaurante onde davam a comer pratos simples que os clientes adoravam: pescada fresca cozida com batatas e grelos, pastéis de bacalhau com arroz de feijão, iscas com elas, carne com batatas assadas, banana com queijo ou marmelada, vinho servido em jarro. O Jorge Amado gostava muito de lá ir com os amigos. Ali ficavam a contar histórias, horas sobre horas, e a olhar o Parque Mayer, que, ao contrário da lenda que sobre ele se criou, teve sempre, mesmo no auge dos teatros e dos divertimentos, o ar de que ia fechar no dia seguinte. Naqueles anos distantes, em que a descoberta da comida rápida pôs na moda os “snackbares” com combinados e minipratos, aquela casa vagarosa, com os seus sabores antigos e honestos, era como um templo iniciático a que se acedia com palavras de passe e toques rituais.

As três irmãs eram asseadas, metódicas, complementares e uníssonas. Uma estava na cozinha, outra ao balcão, a terceira às mesas. Os seus gestos eram calculados e contíguos uns aos outros. O gesto da que tirava as batatas do lume prolongava-se no da que recebia o prato, passando-o ao que o punha na mesa. A voz de cada uma era o eco da voz das outras duas. Uma dizia: “Iscas”. E as outras repetiam: “Iscas”. Uma exclamava: “Vinho”. E as outras exclamavam: “Vinho”. As suas vozes estavam entre as do teatro amador e as do coro de igreja. E ganhavam as cores das palavras que pronunciavam. Eram abertas e solares quando diziam “ovo estrelado”. Tornavam-se misteriosas e nocturnas quando falavam de azeitonas pretas. Eram altivas quando anunciavam o cabrito assado e humildes quando propunham os legumes cozidos.

Naquele restaurante, onde a vida corria ao encontro de si mesma, só havia uma séria contrariedade. Faltava uma máquina de café. Sem ela, era servido um café de cevada morno e triste, que deixava os clientes insatisfeitos, assim ficam insaciados aqueles que terminam o amor antes do fim. Muitos iam a um restaurante próximo beber o café forte e cheiroso que ali lhes era negado, arriscando-se a ouvir alguém dizer: “Num sítio começam e noutro acabam!”

Um dia, um cliente, farto de tantas humilhações e enraivecido pela falta de cafeína, atreveu-se a dizer a uma das irmãs: “Ó dona Mimi, porque é que as senhoras não compram uma máquina de café?!” Ela fitou-o como se lhe estivesse a ser feita uma pergunta íntima e respondeu em voz baixa: “Sabe o senhor que eu e as minhas irmãs somos solteiras. Temos um irmão, que é casado, mas que também não tem filhos. Se comprássemos uma máquina de café, depois, quando morrêssemos, não tínhamos a quem a deixar”. O cliente olha-a vencido e mudo, compreendendo, naquele momento, que, em vez de precipitação e leviandade, a vida pode ser feita de sabedoria e prudência…

Por: José Manuel dos Santos

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