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«As intervenções escultóricas feitas na Covilhã nos últimos dez anos são de gosto duvidoso»

Cara a Cara – Entrevista

P- É possível um escultor sobreviver numa cidade do interior do país?

R-Uma das vantagens do interior, que é mais pobre em termos culturais, é ser menos distractiva e conduzir a uma maior concentração sobre o trabalho. Mas não se consegue sobreviver única e exclusivamente com as encomendas que aqui se fazem. A maioria do meu trabalho é entregue a galerias que se encarregam da distribuição nacional e na Península Ibérica. Só pontualmente aparece uma ou outra encomenda na região, sobretudo arte pública solicitada por Câmaras, associações ou instituições.

P-Ainda não existe na região nenhuma obra com a sua marca. Acha que o seu trabalho é reconhecido?

R- Penso que o meu trabalho é reconhecido, mas ainda não foi reconhecido pelo poder. Isso tem a ver com os referenciais estéticos que existem na região. Não se dá muita oportunidade à inovação, não se arrisca, e tenta-se sempre apostar naquilo que parece estar mais cimentando. Concretamente na Covilhã, as intervenções escultóricas que foram feitas nos últimos dez anos são, no mínimo, de gosto duvidoso. Mas isto é a minha opinião. Só lamento que não se encomendem obras a outros escultores. Tenho algumas expectativas em relação às obras actualmente em curso, como a Ponte do Rato, que parece ser um projecto extremamente interessante, e o Jardim do Lago.

P-Como deveria ser a Praça do Município do futuro?

R-Não consigo dizer isso para já. Teria que ser uma coisa pensada. Mas sinto que quando as praças são pensadas para o futuro, as pessoas habituam-se a viver com elas e deixam de poder viver sem elas. Não sei quantos anos durou a antiga Praça do Município, desenhada por Francisco Simões, talvez uns 14 ou 15 anos, mas a construção ali feita é um perfeito disparate porque nem permaneceu o tempo suficiente para fazer história, para ser avaliada até que se inferisse que era mesmo de má qualidade. Lembro-me ter sido feito na altura um investimento significativo para a Câmara, as obras demoraram um ano e meio ou dois anos, interditou-se o Pelourinho ao trânsito e passado 14 anos foi deitada abaixo. A minha dúvida é se daqui a 15 anos a Praça do Município vai abaixo para dar lugar a uma nova. Se isso acontecer, que dure pelo menos 200 ou 300 anos.

P-A rotunda que foi colocada na Praça do Município tem sido muito criticada. Qual é a sua opinião?

R-A maioria não gosta, mas, de tudo o que ali foi colocado, o monumento escultórico é o que menos questiono. Não sendo propriamente uma obra de génio, nem notável, é aquilo que menos colide e o que é melhor. Sinto muito mais o prédio da APAE Campos Melo do que aqueles monolíticos.

P-Que solução apontaria para revitalizar o Centro Histórico?

R-Não sei propriamente o que é o Centro Histórico da Covilhã, porque já está tão pejado e pontilhado de intervenções mal feitas que talvez tenha que haver uma demolição para se tentar cozer as coisas umas com as outras. Foram feitas edificações, há excesso de placas sinaléticas e isto está uma amalgama… As coisas têm que ser cozidas umas com as outras. Neste momento, a praça tem uma série de grades em acabamentos diferentes: inox, ferro fundido e ferro forjado. Há uma certa falta de sensibilidade. Por exemplo, no monumento da Praça do Município foram colocados dois sinais de trânsito e uma coroa de flores no centro. Se fosse essa a intenção da escultora, ela tinha-as lá colocado. Quando se confia no seu trabalho, seguem-se as suas orientações, caso contrário estamos sempre sujeitos que chegue outra pessoa e coloque lá umas chapas com os notáveis da Covilhã.

P-Acha que com o curso de Arquitectura da UBI e com os novos cursos de Design e Artes, os referenciais estéticos da cidade podem mudar?

R-Com certeza que mudam. Aliás, não há outra alternativa e esses cursos vêm acelerar essa mudança. A Covilhã foi e é muito pobre em termos arquitectónicos. Se olharmos para o passado da cidade em termos de edificações públicas ou particulares, vemos que não temos grandes casas nem grandes obras. Os referenciais estéticos são pobres e quando isso acontece, tende-se a reproduzir novamente coisas pobres. O edifício que foi feito para a Associação de Pais e Alunos da Campos Melo é uma agressão. Não estou a dizer que está mal feito, mas está mal para aquele local.

P- O que é necessário para não haver estas “agressões”?

R- Era, fundamentalmente, a colocação de pessoas com sensibilidade e formação nos postos de decisão, para que se pudessem fazer avaliações baseadas em critérios objectivos e não tanto ao sabor do gosto. Diz-se que os gostos não se discutem, mas são susceptíveis de serem avaliados. Há patamares para as coisas e tem que haver pessoas para fazer essa avaliação.

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